Alguém naquela editora estava brincando comigo. Pensei na data. Geralmente no dia internacional da mulher eles davam rosas para as mulheres que trabalham na editora. Mas hoje não é dia internacional das mulheres. A menos que eu tenha ficado tão aérea que não tenha visto isso. Mas não. Eu sei que não era. Então quem seria capaz de me mandar flores. Não me importei muito. Não me importava muito com nada.
Eu apenas queria trabalhar sossegada. Sentei e comecei a trabalhar de novo. Precisava apressar um bendito escritor. Iríamos acabar perdendo a data do lançamento do livro. E o outro precisava corrigir algumas coisas, a menos que quisesse lançar uma piada e não um livro. Continuei ali apenas escrevendo. A noite teria eclipse. Eu tentaria ver. Continuei ali sentada lendo e re-lendo. Tinha que decidir se publicava alguma coisa ou não. No fim do dia a pilha de “Publico” tinha 6 e a lista de “Não Publico” tinha 12. Havia boas histórias, mas precisavam amadurecer. Então eu ainda tinha a boa vontade de escrever e dar alguns toques nos escritores. Gostava de ver quando meses depois chegava algum texto novo e eu reconhecia as mudanças. Dava gosto de ver e só publicava se realmente tivesse ficado bom. Alguns me mandavam poucas e boas redigidas. Mas alguns conseguiam ver a essência e extrair alguma coisa de bom na critica. Porque ela era bem construtiva. E assim seguia. Eu também precisava ver se a capa dos livros condiziam com a história ou se pelo menos passavam a mensagem. Por isso gostava de Tina. Ela sempre conseguia ver a alma do texto e pensar em uma capa perfeita. Enquanto eu me distraia em pensamentos “ele” chegou. Cantalorando e sorrindo. Olhou para a mesa e disse com um sorriso:
__ Conquistou alguém, hein?
__ Alguém deve estar pensando que é 1° de abril.
__ Ou alguém conseguiu ver uma mulher irresistível atrás de todo esse mal humor.
__ Cuidado recém-chegado, eu mordo.
__ Bem que eu gostaria. - disse ele sorrindo de novo.
__ Antony você quer arrumar problema comigo logo de cara?
__ Não. Mas vou acabar arrumando se você continuar me chamando de Antony.
__ Mas Antony é o seu nome.
__ È, mas eu já disse tenho apelido. È Tony.
__ Ok, Antony.
Ele me encarou mais uma vez. Me avaliando. O encarei de volta. Claro que eu tinha que olhar para cima porque era ligeiramente mais baixa que ele.
__ Você é muito mala.
__ Oh Meu Deus. Voltamos ao jardim de infância.
Ele riu.
__ Se estivéssemos no jardim de infância você seria a professora malvada que ninguém gosta.
__ E você seria o pirralho enjoado que fica sempre de castigo.
__ Mas o pirralho enjoado sempre é o favorito da turma. A professora não.
Pela sua expressão vi que ele pensou ter ganhado a batalha.
__ Claro todo mundo tem que ter um palhaço para rir.
__ Melhor um palhaço que faz rir do que uma bruxa que faz chorar.
__ A bruxa vai usar o grampeador de papel no dedo do pirralho se o pirralho não a deixar em paz.
__ Aff, você precisa relaxar.
Apertei o grampeador para o lado dele em uma ameaça velada.
Ele apenas sorriu de um jeito que honestamente estava começando a me irritar.
Tina entrou na sala na hora. Me olhou com uma cara e depois olhou para Antony. Ele olhou para a sala e disse:
__ Qual o numero dessa sala?
__205 não sabe ler?
__ Sei. Numero inapropriado.
__ Por quê?
__ Deveria ser 71 e ter teias de aranha para todo o lado nas paredes, um caldeirão perto da porta e um gato preto debaixo da mesa.
Mal vi quando o grampeador saiu de minha mão e foi direto em direção dele. Ele se esquivou e saiu rindo da minha sala.
__ Ah eu vou arrancar os olhos dele. - eu disse.
__ Que foi que eu perdi?
__ Nada Tina! A não ser o novato me estressando ao máximo e tentando me matar do coração. Infarto aos 22 anos. Que demais.
__ Ele te tirou do sério? Fez todo mundo rir lá em cima. Caiu nas graças do povo todo.
__ È? Mas só soube me irritar.
___Será culpa dele? Mas pelo menos uma coisa ele te fez sentir.
__ O que?
__ Mesmo que seja apenas raiva, mas não deixa de ser um sentimento e um sentimento forte.
A encarei surpresa e confusa. Realmente nos últimos meses eu não havia sentido muita coisa. Fome ou frio talvez. Mas raiva, ódio ou amor não. Sentia apenas a dor sufocante dia após dia em minha mente. E a raiva sim. Mas de mim mesma. Se eu tivesse feito as escolhas certas não estaria nessa situação. Tudo seria diferente se eu tivesse escolhido a opção certa. Não teria dor. Nem tristeza. Nem solidão. Não teria nada. Mas como sempre, eu fiz a escolha errada e agora eu passaria a vida inteira sendo punida por isso.
Voltei para o presente e senti os olhos de Tina em mim. Por trás do negro de seus olhos eu vi o arrependimento de ter dito algo. De ter falado qualquer coisa que pudesse ter me magoado ou me trago lembranças ruins. Fiz um esforço e sorri para ela.
__ Ele é um mala. Tomara que o transfiram para qualquer outro setor que não seja o meu. Eu não mereço.
Ela riu e olhou para a mesa.
__ Rosas?
__ Correção cara amiga. Uma rosa.
__ Quem te deu?
__ Não sei. Deixaram jogada em cima da mesa. Talvez tenham errado a sala.
___ Sei.
__ Quem me mandaria flores?
_ Sei lá. O Calvin.
__ O ilustrador egocêntrico? Acho que os nãos que eu dei na cara dele foram o suficiente para ferir e desmanchar aquele ego enorme que ele tem.
__ Pior que é. Não o vejo mais dar em cima de você.
__ Não agora ele é dedicado a dar em cima da Kátia.
__ Cara ele atira para tudo quanto é lado.
__ Se a editora sofrer um ataque temos nossa metralhadora.
__ Mas acho que ele vai ter competição agora. As meninas ficaram loucas no Tony. Também não é de se admirar nem questionar. O cara é lindo. Lindo de mais. Inteligente e divertido. È perfeição demais em um homem só. Os que eu conheço são ou coisa ou outra. Ou são lindos e burros, ou lindos, inteligentes e arrogantes. Ou feio e inteligente e sensível.
__ Nossa.
Eu conheci alguém que se enquadrava perfeitamente nessas condições. Lindo, inteligente, gentil e divertido.
Sacudi minha cabeça de novo. Porque as lembranças tinham que ser tão insistentes.
No almoço dava para ouvir os comentários das garotas. Aquele maldito restaurante estava ficando cheio demais. Fazer o que? Era o único lugar que eu conseguia almoçar em paz. Eu poderia até ir em casa almoçar. Mas o transito era muito intenso e eu poderia perder boa parte do meu horário.
Ouvia Kátia dizer o quanto os olhos do rapaz era lindo, o quanto a boca dele era tentadora. O Calvin arrumou concorrência mesmo. Pensei comigo mesma.
Depois do almoço como normalmente fazíamos voltamos para a sala. E continuamos o trabalho. O novato veio me mostrar a idéia para o livro. Até que era boa. Realmente ele tinha talento. Para não dar mais asa a cobra apenas disse um: Ficou bom.
Ele não disse nada apenas saiu da minha sala.
Acho que ele devia estar esperando palmas e uma estrelinha. Nossa, estou mesmo ficando malvada.
Passei o resto da tarde apenas me dedicando a livros.
Eram 17h50min estava quase saindo quando ele entrou na minha sala de novo.
O encarei. Ele apenas me estendeu uma pasta. A abri e ali tinha uma capa de livro. Para o mesmo livro que ele havia me mostrado antes só que essa estava simplesmente incrível. A outra já estava ótima, mas essa aqui estava demais.
__ Mas porque você fez outra?
__ Você disse que estava boa.
__ Bom e geralmente as pessoas entendem isso como uma aprovação.
__ E essa?
__ Essa esta ótima, a outra estava muito boa mas essa aqui preenche mais o conceito do livro. Ficou realmente lindo. Esta excelente parabéns.
__ Obrigado.
__ Mas porque você fez de novo?
__ Nunca faço nada apenas bom.
Disse me deu um sorriso e saiu da sala.
As 22 horas eu já estava no parque da cidade. Usava um moletom porque estava frio. E estava sentada com meu telescópio já montado só esperando o espetáculo começar.
Havia varias pessoas no parque. Observadores que como eu queriam ver o eclipse. As 22:15 como previsto ele começou. Fiquei observando aos poucos enquanto a lua assumia aquele tom avermelhado. E depois se escurecia. Olhando pelo telescópio era chocante. As cores muito vivas. Um misto de luz e escuridão que encantava. Olhei em volta e vi que as estrelas estavam lindas. As constelações dividindo o palco daquele espetáculo. Scorpion, Sagitário, Centauro. Estavam lindas. Minha favorita é Scorpion. È a maior e mais detalhada. É curioso como todos olham para cima e nunca conseguem ver a menos que alguém mostre ou saibam o que estão procurando. È tão bonito.
Me deitei no lençol e fiquei olhando para o céu. O eclipse estava lindo. Um fenômeno que ninguém deveria perder.
Gostava de ver a natureza se manifestando em seus mistérios. Porem eu sabia que ao fazer isso eu acessava lembranças que tentava a todo custo sufocar. Lembranças que quando surgiam, rasgavam todos os tecidos dentro de mim e surgiam como uma sombra negra que me impedia de ver o sol. Lembranças que ao se erguerem me mostravam que simplesmente não existia nada. Como se tudo fosse apenas um sonho e eu agora tivesse que viver a vida no pesadelo. Lembranças que ao se erguerem me jogavam no buraco escuro de onde elas nunca deveriam ter saído e que eu poderia visitar sempre que quisesse. Se eu aceitasse pagar o preço depois. Mas eu não aceitava. Era alto de mais. Então eu apenas passava por cima.
Por isso no exato momento em que comecei a me lembrar de quantas vezes estive deitada em seu peito naquele mesmo parque vendo também um eclipse. Me levantei juntei minhas coisas e sai direto para o carro. Por mais que eu quisesse eu não conseguiria ficar ali mais um minuto que fosse. Encarar lembranças era para os corajosos. E eu era apenas uma pessoa fraca.
Chegando em casa apenas me joguei na cama. Foi inútil percebi 45 minutos depois. A dor era tamanha que eu não conseguia respirar. Me levantei fui ao banheiro, peguei um comprimido do remédio para dormir e o engoli. Eu não era forte o suficiente para enfrentar a noite sem ele.
Em pouco tempo a inconsciência me dominou. Eu sabia que eram raras as vezes que as lembranças não me incomodavam nos sonhos. E eu tinha certeza que hoje não seria um dos dias que eu não me perderia em sonhos de um tempo maravilhoso mas que simplesmente acabou.
Ao acordar no outro dia, parecia que tinha sido atingida por um furacao. Sentia uma dor de cabeça terrível. E não conseguia enxergar nada na minha frente. O frio estava horrível. O vento ricocheteava meu rosto. Procurei uma sapatilha para calçar e tirei minha jaqueta jeans do guarda roupa. Mais uma vez passei o pente pelos cabelos e o prendi usando um palito. Apenas a franja ficava solta no rosto. Mamãe sempre dizia que meu cabelo era lindo para sempre viver escondido daquele jeito. Eu não me incomodava. Meus óculos também eram um modelo meio ultrapassado e não muito atraente. Me deixava mais velha. Mas eu só usava na editora mesmo. Ri pensando que isso não era desculpa. Afinal tirando a editora eu não tinha vida nenhuma.
Chegando a minha sala. Mais uma rosa vermelha.
Antony chegou logo depois de mim.
__ Você viu quem deixou isso aqui?- perguntei.
__ Não.- respondeu ele me encarando.- Você não esta irritada por receber flores esta?
__ Não. Eu não estou irritada com as flores. To irritada por não saber quem esta mandando.
__ Vai ver a pessoa não tem coragem de te entregar pessoalmente.
__ E porque não teria?
__ Ontem você mesmo me disse que morde. Acho que isso já é uma dica.
Eu ri. Não teve jeito.
__ Okai. Vamos ver em quanto tempo ele desiste.
__ È vamos ver. Ah olha o escritor mandou mais dois capítulos de livro para você revisar.
__òtimo eu estava esperando por isso.
Ele me passou o documento e eu comecei a ler.
__ Ah esqueci de te dizer ontem.- ele começou e eu o olhei.
__ O que?
__ Para mim vai ser ótimo trabalhar com você. Todos dizem que você é a melhor daqui. Que não é editora chefe porque ainda não quis. Todos falam que você é uma lenda. Sua reputação te precede e trabalhar com alguém assim é muito significativo para mim.
Sorri para ele novamente.
__ È a segunda vez que te vejo sorrir.- ele disse e voltou a encaram a folha que trabalhava.
O olhei sem entender e voltei a me focar no texto. Realmente era a segunda vez que sorria no dia.
__ Obrigado pelos elogios, Tony.
Ele sorriu satisfeito.
__ Você se incomoda se eu ficar aqui ao invés de ir para minha sala?
__ Não. Se você conseguir se acomodar.
__ Posso usar a ponta da mesa?
__ Pode.
__ E você se incomoda se eu fizer outra coisa?
__ O que?
__ Você não gosta de ninguém te perturbando enquanto trabalha não é?
__ Mais ou menos isso.
__ Então você não se incomoda se eu...- ele deixou a frase inconcluida e me mostrou um pequeno mp3 player.
__ Fique a vontade. Mas não coloque musica alta.
__ Pode deixar.
Ele colocou o fone de ouvido, ligou o som e voltou para a folha.
Mirei meu texto e continuei a ler.
Vi Kátia passar no corredor e em seguida voltar para ter certeza que havia visto Antony mesmo na minha sala. Concluiu que sim e continuou caminhando. Balancei a cabeça.
Aquela garota era doida.
Ele me olhou e eu retribui seu olhar. Vi que seus olhos realmente eram de um azul lindo.
Ele ficou em minha sala até a hora do almoço.
Quando tina passou para me chamar ele se levantou e começou a juntar as coisas deles.
__ Antony. - chamei enquanto ele já estava na porta. Recebendo um olhar de protesto por usar o nome todo.
__ Você almoça onde?
__ Ainda não resolvi. Estou na fase da avaliação. Vou em um depois em outro restaurante.
__ Vem com a gente hoje. Se você quiser. Almoçamos a menos de uma quadra daqui.
__ Claro. Vou sim. Tudo bem para você Tina?
__ Claro tudo bem.
Respondeu ela em seguida me lançando um olhar de duvida.
Saímos os 3 para almoçar.
Percebi que ele realmente era um pouco divertido. Tina não deixou de investigar a vida dele de maneira sutil.
Idade, namorada, onde morava.
Respostas: 26 anos, não namorava e atualmente morava em um apartamento num bairro legal do outro lado da cidade. Havia se mudado para a cidade a pouco tempo então não conhecia muita coisa. Já sabia que ela o convidaria para um lugar qualquer fim de semana. O pessoal do escritório sempre saia.
Terminamos de almoçar e ele simplesmente pagou ao garçon. A parte dele a de tina e a minha.
__ Voce não pode fazer isso.- protestei.
__ Até onde eu saiba não tem nenhum tipo de documento dizendo que eu não posso pagar um almoço para vocês. A lei foi aprovada e eu não sabia?
__ Eu não pedi para você fazer isso.
__ Já ouviu falar de gentileza?
__ Já mas eu não gosto desse tipo de coisa. Me diz quanto ficou minha parte e eu te pago.
__ Não vou.
__Vou perguntar ao garçon.
__ Não adianta eu dei uma boa gorjeta para que você ficasse longe dessa conta.
O encarei furiosa.
__Olha se você ficar melhor com isso e faz tanta questão. Isso fica como uma agradecimento meu por fazer parte da sua equipe.
__ Não concordo com isso.
Ele continuou andando e ignorando completamente os meus protestos.
Quando saiamos ele se afastou por um tempo depois voltou com uma trufa de chocolate em uma caixinha dourada. Deu uma para mim e outra para Tina.
__ não me xinga por favor- pediu ele.
__ Obrigada.- disse Tina.
__ Obrigada, Tony- eu disse.
__ De nada. – ele respondeu e sorriu para mim.
Percebi as garotas do escritório nos olhando. Sentada em um dos bancos comi minha trufa. Coincidencia eu adoro trufa com recheio de avelã. E foi o que ele trouxe.
__Como você sabia?- perguntei.
__ O que?
__ Que eu gosto de trufa com recheio de avelã.
__ Eu não sabia.
Engraçado. Ele sabia de uma coisa tão boba mesmo sem querer.
Ficamos ali ainda por um tempo.
Depois do almoço ele continuou na minha sala.
__ Voce deveria colocara rosa em um jarro.
__ Sim, nem pensei nisso.
Ele me passou um copo alto de vidro.
__ Onde você arrumou.
__Consegui na cozinha disse que no fim do dia devolvia.
Ele despejou água mineral no copo e me passou. Coloquei o botão de rosas vermelho dentro e o olhei por um momento.
__ Rosas vermelhas é amor. Voce sabe não é?
__ sei.
__ E ai quem será o sortudo que você conquistou.
__ Porque sorturdo?
__ Uma mulher como você. Certamente ele é um cara de sorte.
__Acho que ele deu muito azar.
__ E porque?
__ Porque ele escolheu uma pessoa que que tem o coração totalmente fechado para esse tipo de coisa. Isso se eu ainda tiver um coração.
Seus olhos se estreitaram mas ele não disse nada.
Tentativas parte I
Postado por
Monique
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