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Na segunda feira estávamos em uma pequena reunião na editora. A pauta: a feira do livro.


Eu tentava realmente me concentrar no trabalho enquanto eu via Tony e Calvin que tecnicamente deveriam ser adultos normais e maduros dando alfinetadas um no outro. E Kátia que estava com uma cara de cachorro abandonado que me deu até dó. Mas como eu sempre penso. Melhor enquanto a briga é do outro lado. Fico feliz que não sobre para mim. Assim que cheguei a editora Tina me passou os detalhes do sábado: Tony chegou logo depois dela e perguntou por mim. Kátia o avistou algum tempo depois e foi gentilmente lhe fazer companhia. Ela e ele conversaram e dançaram. Depois Tony atrapalhou Tina que estava com um carinha, pediu a ela meu telefone e ficou conversando comigo. Alguns minutos depois voltou a atrapalhá-la pedindo meu endereço. Ela passou e ele saiu da festa. Kátia ficou sem entender nada. Nem Tina entendeu. Foi saber onde ele tinha ido porque eu contei na segunda.

Um garotinho que eu não conhecia bateu na porta, fui atender e era minha rosa. Já havia até me acostumado com essa situação. E tinha que admitir que quem mandava era inteligente. As vezes aparecia em cima da minha mesa, as vezes mandava alguém entregar.Eu já havia desistido de tentar arrancar a resposta dos pirralhos. Eles haviam sido bem comprados. Não entregariam o mandante. E eu já ouvia os murmúrios das apostas cada dia que eu recebia uma nova flor. Até eu já queria saber quem era o infeliz que estava fazendo aquilo comigo. As reações na sala foram as de sempre: Tony riu. Calvin olhou de cara feia e Kátia para variar fez cara de nada.

__ Essa historia de flores já esta cansando. - disse Calvin.

__ Não a mim. Eu até que estou gostando. È divertido. - eu disse.

__ Claro que é.

__ Ciúmes de Liah, Calvin?- zombou Tony.

__ Não. Não ciúmes.

__ Sei.

__ Eu acho que deveríamos dividir essa equipe em duas para render mais. Poderíamos nos separar em duplas e nos encontrar fora daqui para discutir idéias.

__ Eu não levo trabalho para casa. - disse Kátia.

__ Também não. – concordei grata por Kátia ter sido a primeira a falar.

__ Concordo.

__ Vocês não são comprometidos com o trabalho.

__ Você é um mala que se acha o tal.- eu explodi.

__ E você uma garota chata que se acha melhor que todo mundo por isso não se interage com ninguém daqui.

__ AH falou. Idiota eu converso com todo mundo aqui dentro.

__ Mas não é amiga de ninguém.

__ Tina é invisível por acaso?

__ Não, mas vocês já se conheciam.

__ E Tony?

__ Ele não é seu amigo.

__ È sim.

__ Você mal o conhece.

__ Isso é meu problema.

__ AH você se acha melhor que todo mundo. Se sente superior.

Decidi ignorar completamente as reclamações dele.

O chefe colocou a cabeça do lado de fora da sala e acho que percebeu o clima tenso. Devia ter nuvens com trovoes pairando ali. Ele chamou Antony para fazer alguma coisa. Tony parou na porta e disse:

__ Trouxe os DVDs?

__ Trouxe estão na bolsa.

__ Depois eu pego com você e ah pede seu pai a receita daqueles salgadinhos para mim. Estavam deliciosos.

Sorriu e saiu. Me deixando fuzilada pelo olhar de Calvin e Kátia.

Revirei minha bolsa procurando os DVDs e um buraco negro para me esconder. Tony havia feito de propósito. Jogado aquela na sala para ver o que aconteceria.

__ Ele foi na sua casa?- perguntou Calvin.

__ Foi. Ele esteve na minha casa.

__ Quando?- perguntou Kátia.

__ No sábado.

__ Que horas?

__ Umas 22.

__ Ele saiu da festa para ir na sua casa?

__ Acho que sim.

__ Caramba.

A cara de cachorro que caiu do caminhão de mudanças aumentou.

Coloquei os DVDs em pilha sobre a mesa e peguei novamente meu guia da reunião.

__ Temos que definir títulos para serem divulgados. E se possível apressem alguns escritores para fazer uma pré divulgação.

__ Ok. Vou apressar os meus. - respondeu Calvin prontamente.

__ Tudo bem. Acho que é só isso que temos que ver por enquanto.

Os dois saíram da minha sala e eu fiquei sozinha.

Tempos depois Tony voltou para a sala e sorrindo me disse:

__ E ai? Como ficou a reunião depois que eu fui embora?

__ Muito boa. Essa feira do livro vai terminar em desastre.

__ Você é muito exagerada.

__ Foi maldade o que você fez com a Kátia. Ela ficou triste ao saber que você foi para a minha casa. Isso não se faz com uma mulher.

__ Eu apenas disse que fui para a sua casa. Não aconteceu nada entre a gente e eu não tenho nada com a Kátia.

__ Eu sei.

__Ela é bonita, mas eu já disse que não me interesso por ela.

__ Tudo bem. Estou dizendo apenas para não ficar provocando a garota.

__ Esta bem, defensora das mulheres. Mas eu acredito que Kátia já é grandinha o bastante para saber que nem todo o homem do mundo esta afim dela.

__ Eu sei.

Ele me encarou. E se aproximou de mim.

__ Ah, antes que eu esqueça.

Estendi para ele os Dvds.

__ Cuidado é de coleção e eu sou bem ciumenta com minhas coisas.

__ Tudo bem. Vou ter o mesmo carinho que eu tento ter com a dona.

Ri e fiquei envergonhada.

Antes que eu percebesse, Tony puxou o palito que prendia meu cabelo. Senti os fios se soltarem até o meio das minhas costas. E logo em seguida o fuzilei com os olhos.

__ Me entrega isso agora.

__ Me deixa ver você primeiro.

__ Você esta me vendo, agora devolve isso.

__ Ah, por favor.

Ele se afastou um pouco para me olhar e disse:

__ Nossa, seu cabelo é tão bonito. Por que você o deixa preso o tempo inteiro.

__ Porque me incomoda.

__ Nada haver. Você fica mais bonita assim.

__ Obrigada. Agora devolve isso para mim.

Ele se aproximou e tirou a mecha de cabelo de traz da minha orelha deixando-a cair sobre meu pescoço. Meus cabelos já eram ondulados. O modo como eu os prendia sempre com o palito, deixava as ondas ainda mais acentuadas. Ele afagou gentilmente meu cabelo. Esse tipo de coisa ainda era algo que me incomodava. Causava sensações diferentes. As vezes eu sentia um leve arrepio quando ele fazia isso. Acho que é porque tirando meus pais eu não tinha contato físico com ninguém .seus dedos roçaram em minha pele quando trouxeram outra mecha de cabelo para junto de meu pescoço. O canto de seus lábios se elevaram em um leve sorriso.

__ Você deveria ficar assim.

Tony correu a ponta dos dedos sobre minha face. Eu prendi a respiração. Cintia, outra editora. Entrou na sala e pela primeira vez na minha vida eu vi Tony envergonhado.

__ Uau Liah.- disse ela para disfarçar.- eu não fazia idéia que o seu cabelo era assim.

__ Isso é um elogio?- perguntei.__ Se for. Obrigada.

__ È um elogio.- ela me respondeu sorrindo.

Ela me passou as coisas que tinha que passar e me pediu ajuda em um projeto. Resolvemos o que tínhamos de resolver e ela saiu. Me perguntei como não havia ouvido o barulho do seu salto enquanto ela entrava na sala.

Tony estendeu a mão para mim e me passou o palito. Prendi novamente o cabelo. Acredito que ele tenha ficado constrangido. Porque não falou muito depois disso.

Almoçamos juntos e para evitar problemas ele não se atreveu a pagar. Mas me deu a trufa que sempre dava.O restante da tarde foi extremamente tedioso. E o seu bom humor já voltava. A maior parte do tempo ele ficou fazendo piadas de coisas absurdas e tolas.

A noite na minha casa, enfim o interrogatório chegou.

__ Quem era aquele garoto?- perguntou meu pai durante o jantar.

__ Antony, ele é da editora. Trabalha comigo.

__ Você nunca traz amigos aqui.

__ Eu sei. Ele veio por conta própria.

Mamãe riu.

__ E porque?

__ Ele me chamou para ir a uma festa que o pessoal da editora fez. Eu não quis ir e ao que parece ele não quis ficar. A tina disse onde eu morava e ele veio parar aqui em casa.

__ Tudo bem.

__ Ah, ele pediu a receita dos salgadinhos. Disse que estavam deliciosos.

__ Maravilha. Quando ele voltar eu passo a receita para ele.

__ Quem disse que ele volta?

Papai se limitou a rir.

__ Ele é um garoto muito bonito.- disse mamãe.

__ È?

__ Claro que é. Você não é cega,Liah.

__ Tem razão. Ele é bonitinho.

__ Gostei dele.- disse papai.

__ Eu sei. E ah, eu não tenho mais dezesseis anos. Então senhor Cássio, é feio ficar bisbilhotando da janela.

__ Você fez isso?- perguntou minha mãe.

__ Eu não estava espiando. Eu olhei por acidente na hora em que ele deu um beijo nela para se despedir.

__ Beijo?

__È. Na testa.- disse ele.

__ Hummm.

__ Vocês não existem.- eu disse e sorri.

Terminado o jantar, os 3 limpamos a cozinha. Eram por volta das 22 e 15 quando ouvi meu celular tocando. Reconheci o numero imediatamente. Era ele.

__ Esta brava comigo?

__ Não.

__ Jura?

__ Juro. Eu acho que você diz e faz coisas sem o menor sentido as vezes mas tudo bem.

__ Sem sentido para você. Se você tivesse no meu lugar veria que tudo tem uma perfeita explicação.

__ De que você esta falando?

__ Nada. Eu só liguei mesmo para saber como você esta?

__ Eu estou ótima e você. Esta estranho.

__ Obrigado.

__ Bobo. Quis dizer esta diferente do jeito que é normalmente. Entende?

__ Fiquei pensando em você estar chateada comigo.

__ Eu não fiquei. Pode ficar tranqüilo.

__ Eu não sei o que deu em mim. Me deu vontade de ver como você ficaria e depois eu senti uma vontade inexplicável de te tocar. Sei lá acho que eu estou surtando.

__ Não seja dramático.

__ Sério.

Eu ri. Depois disso se instalou um silencio estranho.

__ Bom eu só liguei para saber se você esta bem. Então durma com os anjos.

__ Obrigada e você também.

Depois de desligar o telefone fiquei sentada na cama olhando para a janela.

Ainda fiz algumas coisas pela casa e então adormeci. Dessa vez eu não tive sonhos.



__ Vou dar uma festa no sábado.- anunciou Tony como Bom dia na terça de manha.

__ Bom dia, Tony.

__ Bom dia- disse ele se sentando a meu lado. - Sério eu vou dar uma festa no sábado e vou chamar o pessoal da editora. E espero que você vá.

__ Você sabe que as suas esperanças são vans. Eu não vou para a sua festa.

__ Você vai sim. Ou eu vou parar na sua casa de novo.

__ Esteja à vontade.

Ele me olhou sério. E depois riu.

__ Aposto que você vai.

__ Quer apostar o que?

__ Cinema semana que vem?

__ Fala sério?

__ Mais impossível.

__ Então esta bem. Se eu for a sua festa eu vou ao cinema com você. E se eu não for?

__ Faço o que você quiser.

__ Você da uma chance para a Kátia.

__ Jogou duro hein? Mas eu não ligo. Você vai à festa mesmo.

__ Veremos.

__ Tudo bem. E ai que filme você gosta?

__ Terror.

__ Vou te levar para ver uma comédia.

__ Ta legal.Vou nessa festa o dia em que o inferno congelar.

__ Espero que “Você Sabe Quem” Tenha um casaco reserva.

Os dois demos gargalhadas dentro da sala.

Passamos o restante do dia nessas brincadeiras.

Cheguei à editora na quarta feira e ele estava na sala do chefe conversando com ele. Sobre a mesa havia minha rosa, sorri ao vê-la. Troquei a água do jarro e a coloquei. Toda manha eu fazia isso. Por um momento aquela rosa mexeu em meu baú secreto de lembranças. Lembrei-me de quantas vezes eu havia recebido dúzias de rosas vermelhas por motivos tão bobos. E as vezes sem motivos nenhum. Quantas vezes após algum recital eu havia recebido rosas vermelhas como essas. E mesmo quando por algum motivo ele não estava. Não me deixava sem minhas rosas. Acredito que minha expressão ficou ruim. Porque quando voltei a mim, Tony estava na minha frente e me olhava com um ar preocupado.

Sacudi minha cabeça tentando espantar a mancha de tristeza de meu rosto.

Tina não almoçou conosco aquele dia. Ela teve um compromisso. Saímos juntos da editora e fomos para o restaurante de sempre. Ele abriu a porta para mim na entrada. E sorriu da minha expressão.

__ Tem um cavalheiro escondido ai dentro?- perguntei depois que ele puxou a cadeira para eu sentar.

__ Qual é? Eu tenho bons modos sabia. Mas você e Tina quase me agridem quando eu tentos

__ Ser educado é uma coisa. Querer pagar tudo é outra.

__ È questão de costume. Sou mais velho que as minhas irmãs e acabei pegando essa mania.

__ A mania de se despedir com um beijo na testa também?- perguntei erguendo a sobrancelha.

Ele ficou vermelho.

__ Às vezes ajo por reflexo quando estou com você.

__ Como assim?

__ Nada. È que às vezes eu esqueço que você não é uma pessoa normal e tenho atitudes que eu teria com outras mulheres.

__ A quanto tempo você não namora?

__ Namorar sério ou ficar com alguém?

__ Tanto faz.

__ Bom, namorar mesmo tem um ano e alguns meses. Ficar com alguém, talvez umas 2 semanas.

__ Considerando que você é um galinha assumido. Isso é bastante tempo.

__ Já disse que estou interessado em uma pessoa particular e vou fazer o possível e o impossível para ficar com ela. E você a quanto tempo esta sozinha.

__ Quase 2 anos.

__ Sério?

__ Mais ou menos 1 ano e 8 meses.

__ E porque?

__ Não me interessei por ninguém.

__ Em quase dois anos?

__ È.

__ Você é muito seletiva.

__ Não é isso.

__ Então o que é?

__ Coisa minha, Tony.

__ Está bem. Não vou discutir.

Ele me encarou de um jeito que eu sabia que queria dizer alguma coisa.

__ Pode falar.- eu me adiantei.

__ Eu apenas não te entendo.

__ Como assim?

__ Você veio com aquela de que perdeu o jeito para o piano e acha que eu cai. Você estava num sábado à noite dentro de casa vendo filmes de terror. E pelo amor de Deus você é uma mulher linda. Às vezes vejo você ficar triste do nada e depois volta a mascara de força que faz questão de usar. E eu ficou louco tentando imaginar o que faz você se esconder assim.

__ Estou?

__ Sim você esta.

__ Então porque você não toca mais?

__ Perdi a vontade.

__ Esta bem. Já vi que não vai sair nada dessa conversa. Mas eu vou te dar um aviso: Você não vai ficar assim para sempre. Eu não vou deixar.

Eu ri.

__ Estou falando sério. E se para te deixar um pouco mais viva eu tiver que parar na sua casa e assistir a filme de terror. Pode ter certeza que eu vou fazer.

Seus olhos me invadiram de um jeito tão intenso. Por um breve instante me perdi neles.

__ Tudo bem.

Ele sorriu para mim. E eu fiquei pensando o que haveria naquele cara para deixá-lo desse jeito. Antony era o tipo de pessoa confiante ao extremo. Do tipo que não vê nenhum problema como sendo grande demais. Do tipo que se acha forte o bastante para enfrentar qualquer coisa, mesmo sendo alguém tão mal humorada quanto eu. E eu devo admitir que gostava muito da companhia dele. Era bom ter mais alguém dentro da minha redoma de vidro que não fosse os 3 que já pertenciam a ela. Dentro de 1 ano e 8 meses, enfim eu tinha deixado mais alguém entrar em minha vida. Parecia piada, mas a vinda dele realmente teve um lado bom.

Naquela sexta feira ele se despediu de mim me entregando um mapa da casa dele. Disse que eu precisaria dele para chegar lá. O deixei em cima da bancada da cozinha quando entrei em casa. E me preparei para mais um fim de semana tranqüilo.

23:30, estava deitada lendo quando meu celular tocou. Tony de novo.

__ O que você esta fazendo?- ele perguntou.

__ Deitada, planejando desesperadamente dormir. E você?

__ Do lado de fora de casa tentando encontrar alguma forma nesses pontos brilhantes do céu.

Eu ri.

__ E porque você esta fazendo isso?

__ Para te impressionar.

Ri mais ainda.

__ Bobagem. Fiquei curioso só isso. Se você gosta tanto de olhar para cima, alguma coisa de bonito deve ter.

__ È lindo. Quando você sabe o que esta procurando.

__ Eu sei. Semana que vem depois do cinema você me mostra alguma coisa.

__ Semana que vem depois do seu encontro com a Kátia, posso te ensinar alguma coisa.

__ Você virá na festa amanha.

__ Eu não vou.

Ele riu.

__ Nós parecemos duas crianças fazendo pirraça para descobrir quem vence primeiro.

__E é isso mesmo.

__ Mas se você não aparecer na festa amanhã. Eu posso ir na sua casa no domingo?

Estranhei, mas não quis ser mal educada. Papai morreria se soubesse que eu fui grossa demais com alguém.

__ Pode vir. Se quiser vem almoçar aqui.

__ Então está combinado. Vou almoçar na sua casa.

Gf Ficamos ainda um bom tempo no telefone, apenas conversando coisas bobas. Passava da meia noite quando ele se despediu me desejando uma boa noite e dizendo para eu dormir com os anjos.

Adormeci.

Para variar sonhei com Victor de novo. A dor surgiu e se foi com o despertar no outro dia. Quando desci para o café minha mãe sutil como sempre perguntou:

__ Vai a uma festa hoje?

__ Não. Tony vai dar uma festa mais eu não vou.

__E por que não?

__ Porque eu não gosto de sair.

__ Filha.

__ Mamãe, por favor. Não começa com isso de novo.

__ È que eu apenas não queria ver minha filha dentro de casa para sempre.

__ Mas eu não tenho vontade de sair mãe.

Ela desistiu e se levantou.

Papai me olhou. Já sabia que iria dizer alguma coisa.

__ Pode falar...- me adiantei.

__ Liah. Você precisa entender sua mãe. Ela quer o melhor para você.

__ Eu sei pai eu entendo.

__ Você deveria tentar pelo menos sair mais um pouco sei lá.

__Pai. Eu não quero sair.

__ Liah independente de tudo que aconteceu você tem que entender: Viktor não vai voltar. Não importa o quanto você fique assim ou o quanto isso a magoe. Ele não vai voltar. Você já sofreu demais com isso. Está na hora de deixar ir.

__ Acha mesmo que eu não gostaria.

__ As vezes eu tenho dúvidas.

__ Como assim?

__ Querendo ou não. Você ainda se mantém ligada a ele. Acredito que sua dor ainda seja seu único elo de ligação com Viktor a única marca dele que ficou em sua vida. E você não quer perder isso. Por isso se recusa a aceitar e a mudar.

__ Eu juro que não acredito que estou ouvindo isso.

Tem hora que meus pais parecem loucos. È difícil acreditar que eu o ouvi dizer que eu sofro porque gosto. Senti vontade de gritar. Mas respeito demais meus pais para isso. Então simplesmente me limitei a sair do jardim e voltar novamente para meu buraco negro.

Tomei um banho demorado. Lavei os cabelos. Me sentei no azulejo do banheiro e fiquei apenas deixando a água cair sobre meu corpo. Tinha uma vontade enorme de sumir dali. Queria pelo menos perder a memória. Ou apagar pelo menos parte dela. Ou simplesmente dormir. Dormir até um dia que eu possa acordar e respirar direito. Até o dia em que eu possa sorrir e ser feliz. E que a dor passe. Ou simplesmente fique mais suportável. Coisa que agora não era nem de longe. Às vezes eu me esquecia e depois voltava tudo. Cansei de me enganar.

Ouvi uma batida na porta do banheiro.

Estou viva.- eu gritei.

Não me incomodaram mais. Fiquei ali por muito tempo. Quando enfim resolvi sair do meu esconderijo, fiquei no meu quarto. Mamãe já sabia que quando isso acontecia eu não saia do quarto por muito tempo. Então ela nem se incomodou. Quando senti vontade de comer algo desci as escadas. Ouvia barulho na cozinha o que significava que papai estava fazendo alguma coisa. Provavelmente bolo de banana. Uma tentativa de reconciliação e a prova cabal de que ele sabia que tinha vacilado.

__ Eu queria que fosse diferente. - ouvi a voz de meu pai.

__ Eu sei. - minha mãe disse- Também queria.

__ Meu Deus, ela é uma musicista tão talentosa. Tem 2 anos que eu não a ouço tocar. Tem 2 anos que eu vejo minha filha vegetar. Ela não sai. Ela não se diverte. Ela não participa de nada.

__ Cansei de comprar vestidos novos na esperança de que ela usasse.

__ Eu queria ver minha filha sair por essa porta. Linda como ela era, bem arrumada, radiante.

__ Se lembra de como ela era elegante?- Mamãe disse.

__ Sempre teve ar e porte de princesa. Até de jeans ficava bem.

__ Ainda fica. Ela é muito bonita.

__ Mas não se importa mais com isso.

Fechei os olhos.

__ Liah era encantadora. Gustavo telefona. Sempre pergunta por ela. Mas já desistiu de uma visita.

__ Ela nunca mais foi lá. Ele se sente tão sozinho. A compania dela seria ótima.

__ Mas, ela não se dispõe a ir lá.

__ A machuca.

__ Eu sei. Mas a Liah tem que entender que a vida continua.

__As vezes- mamãe suspirou- Eu tenho a impressão que perdi meus dois filhos. Richard morreu e Liah, praticamente a mesma coisa.

Meu coração parou por um momento.

__ Quando Richard se foi. Pensei que eu não iria suportar ter outra criança. Quando tivemos Liah eu tentei fazer por ela o que eu não tive a chance de fazer por Richard.

__ Eu sei. Ela é nossa menina.

__ Sim é. E eu adorava quando saímos para fazer compras e quando eu trazia vestidos, roupas e perfumes. Que ela adorava e usava. Eu também adorava Viktor, não tem idéia do quanto eu queria ver os dois casados.

__Eu também.

__ Mas eu não quero ver minha filha um zumbi como ela está. Tem hora que eu lamento que os dois tenham se conhecido.

__ Eu penso assim as vezes. Estou cansado de olhar para a Liah e ver aquele vazio nos olhos dela. Ela deixou Tony se aproximar, mas eu não sei até onde isso vai.

__ Não vai longe. Ela vai se fechar de novo.

__ Gostaria que não.

__ Me mata ver minha filha no quarto em uma tarde de sol como essa.

Fui para meu quarto. Nunca tinha pensado por esse lado. Eu sabia que eu sofria. Não sabia que fazia meus pais sofrerem dessa forma. Eles sofriam junto comigo. Ou até um pouco mais que eu. Pensei no que minha mãe disse sobre parecer que eu havia morrido. E realmente parecia.

Lembrei de quantas vezes Tina falou a mesma coisa. E de Tony me dizendo que eu parecia morta viva.

Mas o que mais me doía era a dor de estar sendo uma filha ruim para meus pais, de estar causando tanta dor para os dois. Papai e mamãe sempre foram tão bons para mim e agora eu era o motivo de dor para eles. Eu nunca imaginei por esse lado. Que eles sentiam a mesma dor que eu. O que eu poderia fazer?

Não sentia a menor vontade de fazer nada de ir para lugar nenhum, de respirar sequer.

Me joguei na cama e afundei a cabeça no travesseiro. Chorei. Nem eu sabia que poderia chorar tanto. Mas chorei como nunca havia feito antes. Não sei dizer se chorei tanto assim quando Viktor morreu, naquele dia pensei que estivessem arrancando meu coração. Hoje eu vi que ainda restou uma parte dele e era essa parte que parecia estar sendo retirada sem anestesia nesse exato momento. E eu queria apenas que a dor passasse. Será que passaria algum dia.

Acho que o choro me deixou exaustão porque adormeci. Acordei a luminosidade do quarto já havia diminuído, o luminoso do relógio me dizia que eram 17:55. Sentia um torpor estranho pelo corpo. Desci para comer alguma coisa e não havia sinal de mamãe ou papai. Olhei para fora e vi os dois sentados conversando no jardim. Eu fiquei olhando por um tempo. Eles se amavam mesmo.

Depois de comer um sanduíche muito nutritivo, subi novamente para o meu quarto. As 20:00 horas fui tomar outro banho. E me sentei na frente da televisão de novo. As 21:00 meu celular tocou.

__ Oi.

__ Você já esta aqui- ouvi a voz de Tony abafada pelo barulho das musicas altas.

__ Não.

__ Esta no caminho?

__ Não eu estou em casa.

__ E a que horas você vêm?

__ Eu já disse que não vou.

__ Por favor, ou você vem ou eu vou te buscar.

__ Boa sorte então.

_ Estou falando sério.

__OK.

Desligamos o telefone e continuei sentada na poltrona vendo televisão.

As 22 o telefone tocou novamente.

__ Oi Tony.- Estranhei que o som da musica havia diminuído.

__Já esta vindo?

__ Não. A festa já acabou.

__ Não. Esta ótima.

__ Sem som.

__ Você não veio não é?

__ É.

__ Que ótimo porque eu estou indo te buscar.

__ O que?

__ Já estou dentro do carro dando partida, agora.

E para completar eu ouvi o ronronar suave do motor.

Dei um pulo da cadeira.

__ Você é doido.

__ Espera só um segundo.

__ Liah- ouvi a voz de Tina _ Ele esta indo para sua casa. Estamos saindo agora.

__ Viu eu disse.- ouvi a voz dele.

__ Tony , espera eu vou . Ok eu vou sozinha me dá meia hora e eu chego ai.

__ Liah se em meia hora você não estiver aqui eu vou ai te buscar e Deus me ajude mas eu vou te trazer do jeito que você estiver.

E com esse recado reconfortante ele desligou o telefone.

Levei dois segundos para pensar e depois corri em disparada para o banheiro.

Meu cabelo ainda estava molhado e eu teria que esperar para prender. Fui para o closet e procurei uma roupa que desse para sair. Vi um monte de calças ainda com etiqueta e peguei uma escura de corte reto. Olhando nas coisas vi uma blusa de alças um pouco mais solta e com um bordado delicado no busto, era branca. Com um dor no peito percebi que minha mãe havia mandado lavar meus sapatos. Me xinguei por isso. Procurando, encontrei um scarpin, praticamente novo. Preto e de salto médio. Rezei para conseguir me equilibrar naquilo de novo. Me vesti e me olhei no espelho. Até que não tinha ficado ruim. Deixei meu cabelo de lado e ele estava levemente ondulado. Não sei qual foi o milagre mas a franja lateral estava mais lisa. Ótimo. Passei a lixa correndo nas unhas. E peguei um colar com um pingente pequeno que minha mãe havia me dado.

E desci as escadas.

Bom pelo jeito que meu pai chegou no pé da escada. Suponho que ao ouvir o barulho do salto ele tenha pensado que a casa foi invadida. Ele ficou me olhando como se nunca houvesse me visto na vida.

__Papai eu vou sair, vou na festa do Tony e não devo chegar muito tarde.

__ Ãh ?

__ Pai.

__ Tudo bem. Seu carro tem gasolina?

__ Sim.

__ Tem a chave de casa?

___ Sim, Pai.

__ Dinheiro?

__ S im.

__ Esta levando o celular.

__Pai?!!!!!!

Eu comecei a rir. Minha mãe veio ver o que estava acontecendo e teve a mesma reação.

__ Ela vai para a festa do Tony, não vai chegar muito tarde e esta levando chave de casa, dinheiro e celular.- Meu pai disse.

__ Claro. Divirta-se querida.

Ela me deu um beijo e meu pai também.

Olhando para mamãe tive a impressão que ela tinha lágrimas nos olhos.

Sai da cozinha com o mapa nas mãos. Entrei em meu carro e dei a partida.

Bom com o GPS do carro cheguei lá bem depressa. Sem erros. Assim que parei o carro o celular tocou.

__ Eu estou aqui na porta. Pelo amor de Deus, Tony.

Se ele respondeu algo eu não ouvi.

Sei que tentando atender ao celular meu palito de cabelo rolou para debaixo do banco. Tentei alcançá-lo de todo jeito e nada. Por fim desisti. Quando sai do carro vi Tony parado perto de um gramado olhando. Não sei se ele não me reconheceu mas continuou olhando como se não tivesse me visto até que eu cheguei bem perto dele. Ele me olhou de cima em baixo e disse:

__ Não sabia que a Liah tinha uma irmã gêmea.

__ E eu não sabia que você era tão pateta.

Ele riu.

__ Que bom que você veio.

__ Depois da sua ameaça o que você queria.

__Com certeza foi melhor você vir sozinha. Esta linda.

__ Obrigada.

__ Vem vamos entrar.

O acompanhei. Pelo visto ele tinha usado o salão do condomínio.

Havia bastante gente ali. Tinha quem trabalhava na editora e pessoas de fora.

Tina me viu e correu para me dar um abraço.

__ Nossa amiga você esta linda.

__ Obrigado.

O som estava mais alto .

Tony me perguntou algo e eu não entendi direito.

__ Você quer beber alguma coisa.- perguntou ele próximo a meu ouvido.

__ Quero.

__ Cerveja, Tequila, Refrigerante.

__ Refrigerante.

__ Só um minuto.

Ele saiu e me deixou sozinha um pouco. Foi tempo o suficiente para Calvin me ver.

__ Eu não sabia que você vinha. - disse ele se aproximando.

__ É. Nem eu.

__ Você esta muito bonita, Liah. Não sabia que você era assim.

__ Obrigada, Calvin.

__ Você esta sozinha?

__ È mais ou menos isso.

__ Ah eu posso te fazer companhia?

Pensei em um jeito de fazer isso sem ser grosseira.

__ Você não veio com ninguém.

__ Não. Estava conversando com uns amigos. Nada de mais.

__ Entendi.

Me sobressaltei quando vi um braço sobre meus ombros e logo surgiu uma lata de coca-cola na minha frente. Tony havia voltado.

__ Ah obrigada.- eu disse.

__ Esqueci de perguntar se você bebe coca-cola porque eu posso pegar outra coisa.

__Eu gosto de coca-cola.

Ele sorriu.

Calvin olhava de mim para Antony e em seguida para o braço dele que percebi ainda estar em meu ombro.

__ Não sabia que você estava com Antony.

__ Como assim estar comigo?- Perguntou Tony inocente.

__ Com ele na festa.

__ Ah eu pensei que ele só estava me recebendo e iria sair depois.

__ Não, - disse Tony- Eu vou ficar com você o resto da noite. A menos que você queira que eu saia.

O tom da voz de Tony apresentava uma certa ironia.

-__ Calvin se quiser se juntar ao grupo.- acrescentou Tony estreitando o braço em meu ombro.

Calvin nem respondeu. Se virou e sumiu no meio do pessoal.

Tony riu.

___ Você é mau.

__ Você quer ficar com ele. Se quiser depois eu volto.

__ Não.

Ele riu mais ainda.

__ Bebe o seu refrigerante.

Abri a lata e bebi um pouco.

Ele sorriu para mim e eu quis entender de que ele sorria.

___ Qual é a graça?

___Nada é só que eu não imaginava que trabalhar na editora fosse tão divertido.

Eu tive que rir dessa.

__ Vem vamos curtir a festa.- ele disse e me deu a mão. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele saiu me puxando.

Conheci amigos de Tony, eram legais. A cada passo dado vários olhares se fixavam em mim. Eu não sabia se o espanto era por me ver na festa, eu estar mais arrumada, ou eu estar de mãos dadas com Tony.

Demos de cara com Kátia, e o olhar dela foi de meus pés a cabeça, parando na minha mão. Senti um frio na espinha pelo modo como ela me olhou. Eu acabaria tendo muitos problemas pelo visto. Depois de cumprimentar muita gente e receber diversos comentários do tipo:” Poxa nem te reconheci!” e ter que sorrir a cada comentário. Enfim Tony se cansou de rodar comigo e paramos em um canto.

__ Quer uma cerveja?- ele perguntou.

__ Não e você porque não está bebendo.

__ Hoje estou sem vontade de beber.

Ele me olhou de um jeito diferente:

__ Fiquei feliz por você ter vindo. Não gosto de pensar em você sozinha em casa fazendo sei lá o que.

__ Eu iria ficar bem.

__ Prefiro você aqui comigo.

__ E porque ? – eu disse tentando não ficar sem graça.

__ Porque eu fico melhor com você por perto.

De repente minha lata de coca-cola se tornou muito interessante. Olhei para ela como se estivesse lendo a melhor historia do século.

Ele ficou em silencio.

__ Não fazia idéia que eu era boa companhia.- eu disse para quebrar o gelo.

__E eu que você sabia fazer piada.

__Viu estamos nos descobrindo.

Tomei mais um longo gole da minha coca-cola.

__ O pessoal esta bebendo com vontade.- comentei

__ Muita vontade.

__ Espero que ninguém durma pelos cantos.

__ Eu também.

__ Sua namorada esta aqui?

__ Não tenho namorada.

__ E a garota que você esta afim?

__Essa esta.

__ E porque você não esta com ela.

Ele me olhou e sua expressão era de riso.

__ Você é inocente ou burra.

__ Ei.

Eu ia discutir com ele quando o DJ aumentou o som. De repente todo mundo estava dançando e Tony e eu parados de frente um para o outro.

__ Você não dança?- ele perguntou.

__ Não sei dançar.

__ Qual é? È só mexer o corpo para um lado e para o outro.

__ Eu não sei.

__ Sabe sim.

__ Não eu não sei. E eu não vou dançar.

Sai do meio da multidão e fui para um canto. Ele veio atrás de mim.

__ Porque você é tão mal humorada?

__ Eu já disse que eu não sei dançar. E não começa a me perturbar ou eu vou embora.

__ Está bem. Eu vou ficar quieto.

Estavamos perto do Open Bar. Olhei para o lado e vi Kátia e suas amigas bebendo em um copo pequeno. Presumi que era tequila.

__ Vai beber Liah?- perguntou Sandra.

__ Não. Eu não vou .

__ Ela não agüenta, não consegue virar um copo.- disse Kátia provocando.

__ Eu não sabia que beber fazia parte de um concurso de talentos.

Eu disse e virei as costas.

__ Frouxa- eu ouvi ela dizer.

Bom, posso garantir que meu cérebro processou isso em duas partes. 1° Eu mato essa criatura. 2° Eu vou socar a cara dela. Porém eu decidi sair na diplomacia.

__ Bebo mais que você e não fico bêbada.- eu disse.

Sabia que ela estava querendo se mostrar para o Tony. O orgulho era o seu defeito.

__ Eu aceito.- ela disse.

__ Eu não acho isso uma boa idéia.- disse Tony.

O Bar tender serviu o primeiro copo com um limão partido em quatro partes do lado. Ela o virou e sugou o limão fazendo careta.

Eu fiz o mesmo logo em seguida.

Bom, eu calculei que seria estranho beber depois de tanto tempo. Mas eu não calculei o quanto a bebida era forte. Ela já desceu em minha garganta me causando uma queimação imensa. Me fiz de forte e suguei o limão também.

Tony me olhou como se já soubesse que aquilo não daria certo.

__ Manda outra.- eu disse.

Ela virou e eu também. 3° dose. 4°dose.5ºdose.

Percebi quando ela começou a desistir. Porque eu comecei a me enjoar também.

Me fiz de forte e continuei a beber. Eu só queria parar mas não queria que ela vencesse.

Depois da 6° dose ela disse.

__ Desisto.- e saiu batendo o salto.

Tony gargalhou.

__ Eu acho que estou sentindo alguma coisa.

__Você ficou bêbada.

__ Não. Estou apenas tonta.

__ Vem fica perto de mim.

Tony ficou de frente para mim.

__ Toma um refrigerante. Ajuda a melhorar.

Bebi o meu refrigerante.

__ A Kátia vai matar você sabia?

__ Sei.

__ E?

__ Vou correr o risco.

Ficamos parados ali um pouco. Olhei para frente e vi Kátia me olhando furiosa do outro lado. E decidi. Começava a tocar uma musica reconhecia. Poker Face. Lady Gaga.

Me levantei e puxei a mão de Tony. Paramos no meio do pessoal tentei me lembrar de como dançava. Apenas comecei a me mexer. Tony me acompanhou. Não fazia idéia de como era fácil.

Perdi o a noção do tempo de quanto eu dancei. Mas no fim estava exausta. E mesmo assim não queria parar. Vez ou outra eu percebia Tony me tocar e mesmo assim levava na brincadeira.

Por fim foi ele quem disse:

__ Ah meu pé já esta doendo.

Fomos para a área externa do salão.

__ Eu nunca mais te provoco com nada.

__ E porque?

__ Você virou gole após gole para não deixar Kátia satisfeita e depois me fez desistir de ficar na pista de dança.

__ Eu não me divirto assim tem quase 2 anos. Obrigada Tony.

__ De nada. Quer comer ou beber alguma coisa.

__ Não.

__ Nada?

__ Quero outra tequila.

__ Liah. Olha o exagero, como você vai embora depois.

__ Vou de taxi.

__ E o carro?

__ Fica aqui e você leva amanha.

__ Quer dormir aqui?

__ Nem pensar.

__ Estou oferecendo como amigo.

__ Eu sei. Mas eu quero outra tequila.

__ Okai.

Ele se levantou e foi buscar.

Virei o copinho novamente.

Ele riu.

Ficamos sentados conversando. Tony me contava coisas de sua vida em família. Eu ria com suas historias. E lhe contei um pouco de minha vida. Mesmo sabendo que não era nem de longe tão emocionante. Ele prestava muita atenção em cada coisa que eu falava. E eu percebi meio constrangida que seus olhos não saiam de mim por nenhum minuto que fosse.

Era fácil falar com ele. E era muito bom enfim ter alguém com quem falar.

__ Semana que vem temos um cinema.- ele disse

__ Eu esqueci dessa aposta.

__ Eu não. E nós vamos.

__ Eu sei que vamos.

__ Que filme você quer ver. Romance?

__ Nem matando.

__ Terror também não.

__ Comedia.

__ Perfeito.- ele cedeu.- Jantar depois?

__ Nada disso.

__ Ah qual é?

__ Pizzaria.

__ Tudo bem. Tem que me mostrar constelações .

__ Eu vou tentar.

__ Okai.

Olhei no relógio e ele para minha surpresa marcava 2:20 da manhã.

__ Eu preciso ir embora.

__ Esta cedo.

__ Não para mim.

__ Espera mais um pouco.

__ Eu tenho que ir.

__ Bom nós temos um problema.

__ Qual?

__ Você bebeu. Não pode dirigir.

__ Eu não estou bêbada.

__ Se a policia te parar você vai ter problemas e todo sábado tem blitz na rua.

Droga eu tinha esquecido dessa.

__ Vou ter que esperar a Tina ir então.

__ Ela também bebeu.

__ E como ela vai?

__ Bom. Ou eles vem de taxi, ou escolhem alguém para não beber.

__ Isso é bom. Segurança em primeiro lugar.

__ Viu somos delinqüentes responsáveis.

Eu tive que rir dessa.

__ Vou de táxi. – eu disse.

__ Eu te levo.

__ Não precisa.

__ Eu vou levar você.

Eu o encarei desafiadora depois lhe dei a mão e o puxei novamente para a pista de dança.

Dançamos muito. Até que enfim eu não agüentei mais.

Insisti em vir sozinha e ele não deixou.

__ Isso não é necessário.- eu me queixei enquanto ele dirigia.

__ È sim.

__ Não. Eu posso ir sozinha.

__ Dá um tempo.

__ Depois como você vai voltar.

__ Venho de táxi.

__ Não. Você volta com meu carro.

__ E se você precisar dele?

__ Uso o da minha mãe ou do papai. E se por acaso eu estiver assim tão azarada que nenhum deles funcionar e não houver táxi disponível nessa cidade. Eu ligo para você. Você não gosta de ser o cavaleiro branco salvando a donzela indefesa?

__ Esta me dizendo que você é a donzela indefesa?

__ Não.

__ Viu só para você ver que eu tinha razão.- ele apontou para a frente e vi luzes vermelhas piscando. Realmente estava acontecendo uma blitz. E se eu estivesse no volante. Seria barrada com certeza.

__ Obrigada. – eu disse.

__ De nada.

__ Você é um cara legal.

Ele sorriu.

Chegando a minha casa . ele me acompanhou até a porta.

__ Amanha cedo eu trago seu carro.

__ Não precisa. Traz quando a gente se encontrar.

__ Você vai ficar até segunda sem ele?

__ Não. Você vem almoçar aqui amanha. Esqueceu?

__ Sim. Eu tinha esquecido.

__ Vai furar?

__ Não. Eu estarei aqui.

__ Meio dia.

__ Tudo bem.

Ele sorriu e me olhou. Depois mudou o peso nos pés desconfortável.

È aquele tipo de coisa que você sente que vai acontecer, mas não consegue evitar. E eu queria evitar aquilo porque não queria perder o carinho e a amizade de Tony.

Ele mais um vez tocou me rosto e afastou meu cabelo para traz da orelha.

Ele se inclinou em minha direção. O alvo dessa vez não era minha testa. Eu congelei. Senti sua respiração em minha face. Ele tinha a mão em meu rosto o mantendo em sua direção. Eu sabia que aquilo não daria certo. Vi seus olhos azuis brilharem de um modo lindo. E a poucos milímetros do meu lábio ele piscou e beijou delicadamente o canto de minha bochecha a poucos milímetros de minha boca.

Quando ele se afastou. Meu coração estava disparado e eu ainda estava agarrada no lugar.

__ Durma com os anjos Liah.- disse ele descendo as escadas.

__ Você também.

Consegui dizer antes de entrar.

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Tentativas Parte III

As coisas estavam ficando no mínimo estranhas. O mundo devia estar de ponta a cabeça. Será que o apocalipse realmente estava acontecendo? Espero que não. Ou espero que sim. Tanto faz para mim. Vou agora citar para ver se não esqueço os motivos para eu estar acreditando que o fim do mundo esta chegando:


1- Tenho recebido religiosamente nos últimos 10 dias uma rosa.

2- Antony e eu estávamos realmente ficando amigos.

3- De vez em quando ele dizia alguma coisa que sinceramente me deixava vermelha.

4- Tina não saiu fim de semana.

Bom, se esses não eram motivos reais para eu acreditar no apocalipse. Eu não sabia o que seria.

Naquela manha de quarta feira ele ainda não havia chegado. Pegou uma folga e só voltaria a tarde. Me disse que tinha alguns assuntos para resolver. Eu não procurei fundamento. Logo o liberei. Eu não tinha vida própria, mas isso não quer dizer que todos ao meu redor tem que seguir o mesmo triste destino. Eu já havia comprado um jarrinho, para as flores. Na verdade tomei essa iniciativa depois que Tony me olhou de cara feia na segunda e disse que se eu não comprasse ele me dava um. Então alegremente fui ao armarinho e comprei um que se assemelhava a um copo porem tinha o meio mais largo que a borda. E tinha alguns detalhes gravados de dourado no vidro. Tony disse que estava lindo. Percebi que eu já o chamava de Tony e não de Antony. Ele ainda me dava uma trufa todo dia religiosamente.

E para fazer tanto ele quanto eu rirmos demais. Calvin ainda estava olhando feio para ele. E Kátia para mim. Isso na verdade era cômico. Parei para pensar que eu sorria bastante com ele.

Acho que aos poucos eu iria voltar a ter amigos. Mas não poderia pedir mais que isso mim. Tive reunião pela manha e com isso o tempo passou voando. Antes que me desse conta já era hora do almoço. E em menos tempo ainda o almoço já tinha acabado e eu estava de volta a minha sala. Ele já estava sentado , acomodado em uma cadeira na ponta de minha mesa. Rabiscava sem parar uma folha. Iria começar a ilustração de uma historia infantil. Quando me viu sorriu radiante. Não resisti e sorri de volta.

__ Você esta feliz. Qual o motivo?- perguntei.

__Calvin me olhou feio na entrada. Ai como isso é divertido.

__ Pimenta nos outros é refresco não é?

__ Melhor neles do que em mim. – disse ele alegremente.

__ Tenho que concordar.

__ Você vai à festa esse fim de semana?

__ Não.

__ E porque não?

__ Raramente vou à festas.

__ Então o que vamos fazer?

__ Você eu não sei.

__ Bom, vamos fazer alguma coisa. Sair, ir a um bar, cinema qualquer coisa.

__ Bom eu vou ficar em casa e assistir maratona Sobrenatural.

__ Você gosta disso?

__ Adoro.

__ Estranho. Garotas da sua idade geralmente curtem festas. Acho que você não é muito normal.

__ Não. Eu não sou mesmo.

__ Você é uma vampira?

Explodi em risos.

__ Lobisomem? Extraterrestre? Fada dos Dentes?

__ Você sabe que lobisomem geralmente é um homem não sabe?

__ Sei lá. Não curto muito essas coisas.

__ Tem medo?

__ Não. Acho bobagem. Me divirto mais com um bom desenho animado.

__ Ah é claro. Porque um cachorro que é atingido por um caminhão e depois continua andando perfeitamente normal e inteiro é o cumulo da realidade.

__ Eu disse que é mais legal e não mais real.

__ Tudo bem.

__ Hoje você esta bem chata hein?

__ Estou? Nem percebi.

__ Toma, para ver se adoça um pouco sua vida.

Ele me estendeu uma caixa branca com uma fita lilás, estava cheia de bombons.

__ Não me olha assim . - ele disse.

__ Dei uma a Tina também. Eu costumo ser um bom amigo sabe?

__ Obrigada.

Eu adorava chocolates.

__ Você não parece muito do tipo viciada em chocolates.

__ Por que?

__ É magra.

__ Muito magra?

__ Não. Tem o corpo bonito.

Ele me disse erguendo a sobrancelha fazendo cara de quem sabe que eu iria reclamar.

__ Você é muito safado.

__ Eu sei. Mas sabe o que dizem. As mulheres sempre preferem um cara um pouquinho malvado.

__ Gostam é?

__ Gostam. E você gosta de que tipo de cara?

O encarei.

__ Inteligentes, divertidos e fieis.

__ Suas preces foram atendidas.

Eu ri novamente, Tony tem um senso de humor incrível. Não conseguia parar de rir um minuto que fosse com ele.

__ È só que Deus foi tão bonzinho que acrescentou: convencido e galinha.

__ Nem tudo é perfeito.

__ Deixa eu ver.- pedi apontando para a folha.

Ele a entregou para mim. Eu olhei o desenho. O personagem principal tinha um olhar tão meigo. Um ar de criança inocente. Sabia que seria ideal.

__ Ficou bom.- eu disse.

Ele fez um movimento brusco. Sabia que ia rançar a folha então gritei.

__ Não.

Ele parou e me olhou.

__ Ficou ótimo. Muito bom. Maravilhoso. Perfeito.

__ Não precisa ser cínica.

__ Estou sendo sincera.

Ele sorriu para mim de novo e eu não pude deixar de observar como seus olhos brilhavam quando ele sorria.

Esta certo ele era irremediavelmente convencido. E tinha a mania de querer bancar o carinha legal. Isso as vezes me irritava. Mas eu não poderia jamais negar que Antony era um cara prestativo. Perdi as contas das vezes em que ele me ajudou com alguma coisa durante esses dias. Assim como a outras pessoas da editora. Antony tinha essa capacidade de entender as pessoas de um jeito que sinceramente era difícil de se explicar ou definir. E as vezes me enchia de perguntas irritantes:

__ Porque você nunca solta o cabelo?

__ Porque você nunca usa maquiagem?

__ Porque você é tão fechada?

__ Porque você não namora?

Em muitos momentos eu me sentia em um interrogatório. Em outros momentos ele me deixava tranqüila e em paz.

__ O que você esta ouvindo?- perguntei depois de algum tempo.

__ Ah Estou ouvindo Nickelback

__ Você gosta desse tipo de musica?

__ Sim.

Ele me passou um fone. Gostei do ritmo da musica. Era legal. A letra me pareceu romântica demais. Mas tudo bem. Continuei ouvindo. Entrou em outra. Aquilo realmente era triste. “o tempo esta passando depressa e estou me arrependendo de não passá-lo com você.”

__ Nossa, essa é perfeita para fossa.

__ Se é.

__ Um bombom e uma navalha fazem o par não é?

__ Cara você é muito pessimista.

__ Por quê? Porque eu não sou uma boba romântica?

__ Ser romântico não é ser bobo?

__ Ah não? Achei que você fosse do tipo malvado.

__ Sou um pouco dos dois. Depende da mulher.

__ Como assim?

__ Do tipo de cara que ela precisa.

__ Nossa sua lógica é imbatível.

__ Você por exemplo. Precisa de um cara carinhoso. Você parece ser do tipo que curte ficar apenas perto da pessoa amada sem se preocupar com muita coisa.

__ E sou mesmo.

__ Viu. Você já fica até feliz com as rosas que recebe.

__ Você é impossível.

__Sou?

__ È sim. Pelo visto você gostou da musica.

__ È bonita.

__ Acho que essa é um pouco mais legal.

Ele passou para uma outra que realmente tinha o ritmo melhor.

E um refrão desesperado.”Diga para mim e Diga por mim, E eu deixarei essa vida para traz. Diga que você vai me salvar.”

__ Que desespero.

__ Você é o contrario de qualquer mulher que eu conheço.

__ Isso é bom ou ruim?

__ Bom. Te faz diferente das outras, tudo sempre igual enjoa.

__ Tem hora que você diz cada coisa.

Ele se limitou a sorrir.

__ Quando você não esta vendo filmes o que faz?

__ Sou apaixonada por estrelas.

__ Sério?

__ Sim, sério. Eu adoro observar constelações e planetas.

__ Eu só sei ver o cruzeiro do sul.

__ Acredito que todo mundo sabe essa.

__ Ah está bem desculpa por ser menos inteligente que você.

__ Você é muito dramático.

__ Sério eu nunca parei muito olhando para cima.

__ Quase ninguém fica olhando muito para cima.

__ Sei, isso é coisa de almas evoluídas não é?

__ Não. Eu não disse isso.

__ Esta subestimando minha inteligência.

__Antony, você é inteligente, divertido, legal e um bom amigo. Nem todo mundo gosta das mesmas coisas e você não é obrigado a saber o mapa estrelar só porque eu gosto de estrelas.

__ Você cai muito na pilha.

__ Você é um mala.

__ Você me adora.

Meu Deus, como poderia caber tanto convencimento em uma pessoa só?!

__ Sério o que vamos fazer fim de semana?

__ Eu não vou sair.

__ Jura?

__ Juro.

__ Ou vai sair com o cara das flores?

__ Eu não vou sair com ninguém. Tenho um encontro marcado com Sam e Dean Winchester.

__ Não vou entrar em detalhes com isso. Bom eu acho que eu vou a essa festa que o pessoal esta organizando. Eu preciso me distrair um pouco. Talvez o cara das flores esteja lá.

__ Gente, como vocês já arrumaram apelido? O cara das flores. Isso parece nome de Serial Killer.

__ E pode ser. Já vi tantos crimes cometidos por pessoas que amavam.

__ Então não amavam. Quando feri alguém que se ama. Não é amor é doença e precisa de tratamento.

__ Amor e doença são separados por linhas finas.

__ Você esta me assustando.

O chefe entrou na sala. Parece que depois de 10 dias ele percebeu que Tony estava na minha sala. Dividindo a mesa comigo. E parece que assim como os outros. Chegou a conclusão que eu estava fazendo alguma coisa. Parecia que a visão que eles tinham de mim era a de um pittibul raivoso. Será que eu era mesmo tão mal humorada assim? Duvidava disso. Se bem que nossa opinião sobre nós mesmos nem sempre é justa.

__ Algum problema?- perguntou ele.

__ Nenhum.- respondemos Tony e eu ao mesmo tempo.

__ Bom, estranhei Tony estar na sua sala, algo de errado com a sua?

__ Não. Eu gosto de ficar aqui com a Liah e ela não se incomoda de eu ficar. Entao não vejo motivos para sair. Ela é uma boa companhia.

__ Tudo bem. Mas você não acha que fica com pouco espaço. Quer dizer a sala é ampla mas para duas pessoas.

__ Eu não vejo problema algum em ficar aqui. Gosto daqui.

__ Tudo bem, Fico feliz que os dois estejam se entendendo. Vocês são um bom time. E eu quero que continuem assim. –

Ele se virou para me olhar e eu percebi que vinha algo de errado.

__ Continua recebendo flores?

__ Continuo.

__ È o mistério da vez. Todo mundo esta apostando em quem esta mandando as flores para você.

Tony riu.

__ Acredito que uma hora ou outra vamos descobrir.

__ Eu aposto em Calvin.

Eu apenas ri e pensei “Ah se não fosse o chefe.”

Quando ele saiu Tony me olhou e disse:

__ Apostei 50 na ruiva.

Não me dei o trabalho de responder.

Passamos o restante da tarde assim. Entre trabalhos e irritações. Levando a sério uns momentos e brincando em outros. Com ele por perto tive um vislumbre do que deve ser ter um irmão mais novo. Irritante, insistente e chato. Porém não tem nada melhor para espantar o mal humor e o tédio. Pelo menos era melhor do que ficar o tempo todo sozinha encarando a parede pastel.

Na quinta feira quando cheguei na sala ele já estava. E tive a noticia maravilhosa de que iríamos participar de uma feira do livro. Para minha total alegria seria em outra cidade e para melhorar iríamos: Tony , Kátia,Calvin e eu. Tony olhou para Calvin com um sorriso tão grande e tão radiante. Kátia me olhou de um jeito tão estranho. Parecia até brincadeira colocar os 4 para o mesmo evento. Acho que eu vou ter que dormir com o olho aberto. A julgar pela cara da Kátia. Isso realmente seria necessário.

Ao voltar para minha sala, lá estava ela. Vermelha e linda sobre a mesa. Uma única rosa como todos os dias anteriores. Senti o seu perfume suave. Troquei a água do jarro e a coloquei dentro. Deixando na lateral da mesa de modo a não atrapalhar Tony ou eu.

Ele já tinha boa parte da ilustração do livro infantil. E estava gostando do que fazia. Realmente tinha ficado ótimo. Ele conseguia captar a essência da historia e passar isso para o papel. Isso era raro. Não que não houvessem bons ilustradores no mercado. Mas tem diferença entre ilustrar um livro e transcrever sua alma. Tony sabia fazer isso. Isso era uma boa qualidade para alguém. Eu já tinha que começar a separar os títulos que seriam divulgados na feira. E tentar apressar alguns escritores. Queria tentar pelo menos fazer uma pré estréia de um livro que para mim é muito bom. Talvez oferecer uns 2 capitulos impressos para que os leitores tivessem uma prévia da história e ficassem sedentos por mais. Tony me chamou de perversa. Mas propaganda é a alma do negócio.

Fiquei tão submersa no planejamento de folders, conversando com autores e fazendo o projeto da feira que nem vi a sexta passar. Antes que eu me desse conta eu já estava em casa na sexta a noite. Tony pareceu não acreditar que eu não iria na festa. Porque fez questão de me perguntar novamente se eu ia ou não. E a resposta para variar foi: Não. Em casa sabia melhor do que ninguém que mente vazia oficina do diabo, então logo tratei de procurar alguma coisa para fazer. Como não havia nada de muito interessante ou necessário já que meu quarto fica em perfeito estado. Resolvi dar um jeito no guarda roupas. Tinham roupas ali que mereciam ir para o lixo. Mas as que estavam em perfeito estado separei para doação. Minha noite de sexta foi assim. Organizei minhas roupas por cor. E cheguei a conclusão que eu precisava de mais calças. Olhei para o lado e no fundo do closet haviam varias capas penduradas. Fechei a divisória. Eram roupas de outro tempo, lembranças de outra época. Quando terminei fui para o computador um pouco. Parece que nem em casa me desligo do trabalho. Passeei um pouco entre os novos lançamentos e tendências do mercado literário. Por fim o sono me venceu e eu dormi. E a rotina repetiu.

Não eram pesadelos. Eram lembranças reprimidas. Não eram ruins, eram dolorosos. Por que depois a sombra se erguia sobre mim e me sufocava. Tirava minha vida e minha luz. Acabava comigo. Se eu ao menos fosse forte o bastante para olhar para traz e ver que foi uma época maravilhosa e aceitar como um presente as lembranças. Tudo seria muito mais fácil. O problema é que eu não conseguia fazer isso. As lembranças me causavam mais dano do que alento. Mas dor do que alivio. Mais tristeza que alegria. E eu não era forte o suficiente para isso.

Quando acordei a manha de sábado já estava clara. Ouvi meu pai cantando do lado de fora. E mesmo entre as cortinas pesadas, pude ver o que o sol estava lindo. Pulei da cama e tomei um banho. Desci e peguei um iogurte. Ouvi risadas de crianças do lado de fora. E o cheiro de bolo de laranja vindo da cozinha. Papai devia estar se divertindo com os filhos dos vizinhos.

Fui para o quintal e vi que estava certa. As crianças brincavam perto das arvores enquanto meu pai cuidava das hortencias. Quando me viram fui recebida com um coro de “ Tia”. Era engraçado já que eu não tinha sobrinhos. Às vezes eles procuravam livros comigo e ficavam pela casa lendo. Tinha bastante historias infantis em casa. Me juntei a brincadeira. Ajudei meu pai a tirar os galhos e folhas secos do jardim e a cuidar das plantas. No fim da tarefa parecíamos refugiados do vietnan. Minha roupa cheia de terra. Cabelos com galhos e folhas. As crianças descobriram um ninho na arvore. Ficaram um bom tempo observando e deram ao pobre pássaro o nome de Ema. Depois de lavarmos as mãos a varanda fico cheia de crianças espalhadas no chão enquanto comiam o lanche que meu pai fez. Foi uma manha divertida. Bem divertida alias.

A tarde fiquei na varanda conversando com papai e depois fomos para uma partida de xadrez. Ganhei e perdi. Papai hoje não esta para brincadeira. Não facilitou para mim nenhuma vez que fosse. As 16 fui ao salão. Junior implorou por um corte melhor. Cortei as pontas do cabelo e fiz uma hidratação para que ele não tivesse um infarto. Voltei para casa. Tomei um longo banho e troquei de roupa. Comi um sanduíche e fui para a sala de TV. Em pouco tempo começaria maratona sobrenatural. O nome era porque iriam passar no mínimo uma temporada completa da série. E para mim isso era diversão na certa.

As 21.15 meu celular tocou. Não reconheci o numero.

__ Voce já esta na festa?- ouvi a voz dele.

__ Não. Eu disse que eu não iria.

__ Pensei que era brincadeira.

__Porque?

__ Mulher gosta de fazer dengo.

__ Pensou que eu gostaria de ver você implorando para eu ir?

__ Exatamente.

__ Engano seu. Tenho boa auto estima. Não preciso dessas coisas.

__ Sério. Se arruma e vem para a festa.

__ Eu não vou.

__ Não seja má e estraga prazeres. Eu estou com medo. È sério.

Eu ri.

__ Medo de que?

__ Katia.

Ri mais ainda.

__ Cai em cima. Mesmo que seja por uma noite.

__ Não. È diversão por uma noite e problemas por um ano.

__Lamento Tony, eu não vou.

__ Malvada.

__ Até mais.

Desliguei o telefone e me concentrei na televisão. Era um episódio legal. Pelo menos era engraçado. Aquilo me distraiu. Sei que ficar na sala sozinha assistindo filmes de terror não é um programa que muitas garotas gostariam para um sábado. Mas para mim estava muito bom. As vezes eu me pegava imaginando como ele estaria. O que Kátia estaria fazendo? E como ele estaria se livrando. Peguei uma lata de coca cola e voltei para o sofá. Papai iria fazer pipoca com bacon para mim. Disse que traria depois.

Ouvi a campanhinha tocar. Pouco depois meu pai apareceu na porta as sobrancelhas erguidas não sabia o que dizer.

__ Tem alguém da editora te procurando.

Trabalho hoje não. Eu pensei.

__ Quem é? Ah deixa pra lá manda subir.

Ele riu e desceu. Diminui um pouco o volume da TV,e me endireitei do sofá. Olhei para ver quem havia dado as três batidinhas na porta e vi. Encostado na porta estava o visitante.

__ Tony? Que você esta fazendo aqui?

__ Posso entrar?

__ Pode. Mas o que?

__ Te falei que eu estava enlouquecendo lá. Eu não queria ficar em casa nem sair sozinho então eu vim pra cá. Ah sim. Você vai perguntar como descobri seu endereço. A resposta é Tina. Ela me passou seu endereço alegremente.

__ E o que você pretende aqui?

__ Companhia. Sei que você esta vendo filmes. Então quero apenas ficar aqui se não for demais.

__ Esta bem.

O olhei apertando os olhos.

__ È assim que você reage à visita de amigos?

__ Só recebo Tina.

Ele fez uma expressão estranha.

__ Nem imagino o porque?- disse sorrindo cinicamente.- Posso?

Acrescentou apontando para o sofá.

__ Claro.

Pensei que ele iria se sentar na poltrona. Mas ele se sentou a meu lado no sofá. Agradeci aos céus por pelo menos não estar de pijamas como eu costumo ficar em casa. Ele estava um pouco diferente do que eu via na editora. Sem a camisa social, os cabelos mais despenteados. E usava um perfume maravilhoso. Ele me encarou.

__ E ai o que esta vendo?

__ Sobrenatural.

__ Vamos sair?

__ Não.

__ Então pelo menos me explica alguma coisa disso ai. Quem é o cabeludo?

__ Sam.

__ O outro?

__ Dean.

__ E esse cara com cara de doido.

__ Lúcifer.

__ O que?

__ E o com cara de Nada é o Cas. Castiel. È um anjo.

__ Você è doida.

__ Sam libertou Lúcifer e agora eles querem dar um jeito na bagunça.

__AH. Nossa que coisa normal, não é?

__ Ah isso é básico.

Ele riu.

Meu pai chegou alguns minutos depois com a pipoca que ele tinha prometido, coca cola e salgadinhos em uma bandeja. Quase dava para ver uma luz acesa por cima da cabeça dele.

__ Papai esse è Antony, trabalha comigo na editora.

__ Antony esse é Cássio. Meu pai.

__ Prazer em conhece-lo .- disse papai.

__ O prazer é meu senhor e por favor, me chame de Tony.

__Ok. Se precisarem de alguma coisa me chamem.

__Pode deixar pai.

__ Te falei que ele é legal.- eu disse.

__ Realmente. Você não saiu muito a ele. Sua mãe deve ser mais fechada.

__ Engano seu. Mas eu vou contar para ela. Milagre ela ainda não ter aparecido.

__ E porque?

__ Curiosidade. Não costumo trazer amigos aqui. Com exceção de Tina.

__ Nossa nem imagino porque?

__ Vai me deixar irritada de uma vez?

__ Não. A irritação fica para a editora.

__ Entao fica quieto.

Ele riu e se virou para frente. Continuamos assistindo ao seriado. No intervalo ele novamente voltou a me perturbar e como era de se esperar minha mãe apareceu. Apresentei ela a Tony e os dois conversaram um pouco. Deu para ver que como todo mundo. Ela foi com a cara dele. Sozinhos de novo, continuei encarando decidida a teve. Talvez tentando ignorar que ele me encarava. Chegou ao ponto que eu não consegui.

__ Será que essa TV de 32 polegadas não te chama atenção?

__ Não gosto de filmes de terror.

__ Medroso.

__ Não sou medroso. Já te disse que eu não vejo graça em filme assim.

__ E ficar olhando para minha cara tem graça?

__ È melhor que olhar para a televisão.

Fiquei sem graça.

__ Quem diria. Ela nem sempre tem resposta para tudo.

__ Você é irritante.

Ele riu.

Tampei a almofada nele . Ele se sacudia de tanto rir. Fui para a outra poltrona e poucos segundos depois senti uma pressão no rosto. Ele havia me jogado a almofada.

__ Afff que infantil.

__ Você quem começou.

__ Voce precisa deixar de ser irritante.

__ E você deixar de ser mal humorada. Tem tanta coisa legal para viver e você nesse mal humor todo.

Aquilo me atingiu.

__ Idiota.

__ Olha só. Comecei a achar isso interessante.- disse ele apontando para a tela.

Voltamos a assistir. Daí para lá ele ficou quieto. Realmente estava interessado no filme. Ria muito de certas cenas. Não percebemos o tempo passar. Eram 23e30. Ele tinha assistido pelo menos 3 episódios inteiros.

__ Até que é legal esse seriado.- disse ele descendo as escadas.

__ Vo ce deveria assistir do inicio seria mais fácil.

__ Vou procurar os DVDs.

__Levo para você na editora segunda. Eu tenho.

__ Esta bem.

Já na sala de visitas ele olhou para a janela do canto esquerdo. Algo que nem eu lembrava que tinha lá.

__ Seu pai é musico.

Fingi que não ouvi e continuei andando.

Ele repetiu a pergunta e papai estava lá para responder.

__ Não o piano é da Liah.

__ Você toca?_ perguntou ele espantado.

__ Não mais.

__ E porque não?

__Perdi o jeito.

Ele olhou para o meu pai e deve ter notado a expressão dele porque não insistiu no assunto.

__ Bom, senhor Cássio, foi um prazer imenso conhecê-lo.

__ Prazer foi meu Tony, sinta-se a vontade para voltar.

__ Obrigado.

Caminhamos em direção a varanda. Estava mais frio lá fora.

__ Foi uma noite agradável.- ele disse.

__ Não foi das piores.

__ Você è incrível. Como pode existir alguém tão chato. Você sofre de mal humor crônico?

__ Quase isso.

Ele riu.

__ Bom, tenha uma boa noite. Te vejo segunda.- ele disse.

__ Te vejo segunda. E boa noite também.

Ele deu dois passos em minha direção. Eu estranhei. Ele colocou a mão em meu pescoço perto da minha orelha. Sorriu se aproximou mais. Pude sentir sua respiração em minha pele e o cheiro suave de seu perfume. Ele pousou os lábios em minha testa por um instante depois se afastou.

Fiquei parada enquanto ele se virou e saiu. Meu coração batendo de um jeito frenético. Olhei a tempo de ver meu pai abaixar a cortina da sala. Estava olhando com certeza. Deveria estar pensando o que isso significava. Espero que ele me conte quando descobrir porque eu também não entendi.

Já estava deitada quando recebi uma mensagem de texto.” Melhor ver filmes de terror com você que ficar na festa com outras pessoas.”

Abracei o travesseiro. Em algum lugar entre a consciência e o sonho me veio o rosto de Antony.

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Tentativas - Parte II

Eu ainda me questionava o quem poderia ter me dado aquela rosa. Pensei nisso o caminho de volta para casa. Por mais que eu me esforçasse e espremesse minha mente atrás de qualquer informação. De qualquer traço que fosse de alguém que pudesse estar me mandando aquilo. Nada parecia se encaixar. Era a segunda vez que aquilo acontecia. Eu teria que começara a bancar a louca paranóica. Vigiar para pegar o infeliz. Quem quer que fosse eu iria descobrir. Antes de sair Antony me lembrou de levar um jarro no outro dia. Para que ele não tivesse que pegar mais um copo na cozinha. Ele era até engraçado. Eu detestava admitir mas ele era.


Chegando em casa, meu pai avistou logo aquele foco de cor vermelha na minha mão. Vi um brilho em seus olhos quando ele me perguntou:

__ Quem te deu?

__ Não sei.

__ Como assim?

__ Simplesmente apareceu na minha mesa. De novo.

__ Como assim de novo?

__ È a segunda rosa que eu recebo pai.

__ Que bom.- disse ele tentando esconder o letreiro luminoso que piscava em sua testa. “FINALMENTE”. Eu ri sem humor nenhum.

__ Tem peixe para o jantar.

__ hum que ótimo pai. Estava mesmo afim de comer peixe.

Papai me sorriu.

Fui para o meu quarto e entrei no banho. Lavei os cabelos e fiquei um bom tempo apenas sentindo a água no meu corpo. Fechei meus olhos e apenas aproveitei a sensação. Passei a mão pelo cabelo e percebi que eu precisava pelo menos cortar as pontas. Toda vez que eu ia ao salão, Junior sempre me dizia para dar um corte mais moderno. Mas eu não tinha muita motivação. Para mim estava bom do jeito que estava.

Me sentei na poltrona do quarto e peguei um livro para dar uma olhada. Trabalhar numa editora tinha certas vantagens. Eu tinha pilhas de livros. Alguns que passaram por minha mão e outros que não. Uns que eu gostava realmente de ler e outros que eu simplesmente aceitei por ser presente. Nesse momento eu estava lendo uma historia de suspense. Os mocinhos tentavam descobrir o assassino que estava fazendo a festa na faculdade. Aposto minhas fichas no Robert. Ele é muito santinho e perfeito, tem que ter alguma coisa de errado. Bom, final do livro eu descubro.

Papai avisou que o jantar estava na mesa. Desci para comer. Eu ainda acredito que essa casa é meio grande demais para papai, mamãe e eu. Afinal eram;4 quartos, sala de jantar, sala de estar, biblioteca, garagem para 4 carros, jardim, fora o banheiro das 2 suítes havia um social. A cozinha era bem grande, despensa e área de serviço. Fora a varanda enorme que havia na frente e nos fundos da casa. Acho que eles queriam ter mais filhos. Eu deveria ter um irmão. Mas ele morreu quando recém nascido. Há na casa um quarto com tudo que foi comprado para ele. Roupas, berço, brinquedos, tudo. Do jeito que eles deixaram ficou. Mamãe sempre passava por lá só para limpar. Ele usou o quartinho por apenas 2 meses. Ela não se livrou de nada que havia lá dentro. Enquanto eu refreava qualquer coisa que me lembrasse de Kevin e de nossa vida juntos. Minha mãe se agarrava a uma pluma de travesseiro se isso lembrasse de meu irmão. Queria ser igual a ela, mas eu não era. Isso era coisa de gente forte. Eu iria cutucar o que já é ruim para que?

Conversamos pouco durante o jantar. E depois lavamos os pratos e as poucas louças que tinham. Papai não era lá muito fã de empregadas em casa. O máximo que tinha era alguém que ficava na casa durante o dia. Lavava as roupas e limpava a casa. Mas a comida papai fazia. Ele sempre gostou de cozinhar e honestamente acho que isso ainda lhe dava alguma distração. Agora enquanto ele não estava no curso de gastronomia, ensinando a futuros grandes chefes de cozinha ele estava em casa mesmo cozinhando. Minha mãe tinha ido visitar uma irmã. Voltaria mais tarde. Eu sabia que ele falaria para ela sobre a rosa. Depois do jantar acabei jogando um pouco de xadrez com ele. Era divertido. Percebia que as vezes ele olhava para o canto esquerdo da sala. Eu sabia o que ele queria. Mas isso eu não faria mais.

O jogo continuou até as 22 horas. Ele me venceu varias vezes e me deixou ganhar duas. Eu sei que ele me deixou ganhar porque ele não perderia tão fácil. Não por descuido. Era mais como um incentivo para eu continuar. Por duas vezes eu o venci por mérito próprio. Ele trouxe duas xícaras de cappuccino e apenas ficamos ali com conversas bobas. Até que mamãe chegou. Tia Lina estava com saudades e perguntou quando eu apareceria. Ela disse que seria em breve. Ainda bem que a promessa foi dela e não minha. Continuei sentada na sala até que finalmente o sono me venceu. Subi para o meu quarto e me joguei na cama. Com sorte a inconsciência me tomaria rápido e foi o que fez.

Sai cedo para emprego no outro dia. Entrei na minha sala e não vi nada em lugar nenhum. Ai eu parei para pensar em uma coisa. Minha sala ficava fechada. Quem quer que fosse tinha acesso a ela. Ta certo que na hora do almoço eu não tranco. E ta certo que mais algumas pessoas entravam ali quando precisavam de alguma coisa.

Me sentei e comecei a remexer nas minhas coisas. Papeis, formulários,estava dispostos em uma pilha bem organizada sobre a mesa. Do mesmo modo que eu havia deixado na noite anterior. Sinal de que não havia passado ninguém por ali. Isso era um bom sinal.

Não percebi quando ele entrou. Tinha uma ruga na testa. Cara de quem não estava lá muito bem.

__ Bom dia.- ele dise.

__ Bom dia. Esta tudo bem?

__ Não.

__ Que houve?

__ Dormi mal. O vizinho miserável não se tocou que já eram 3 e 40 da manha Por isso continuou ouvindo Guns N’Rose até que alguém provavelmente menos paciente que eu chamou a policia. E eu juro que se eu ouvir mais uma vez hoje:

“ Ohh! Ohh! Sweet Child O’mine. Ohh! Ohh! Sweet Love OF Mine.

Eu vou acabar batendo no infeliz.

Eu ri da sua imitação.

__ Vai rindo mesmo. Não foi na sua cabeça que ficaram cantando.

__ Uau. Eu acreditava que você nunca ficasse de mal humor.

__ Não. Daqui a pouco passa. Aquele bairro só tem gente maluca. Vou acabar me mudando de lá.

__ Nossa que desespero.

__ Sério. AH eu estou de sacanagem. Eu gosto de lá. Tem um parque. È bom para correr e levar o Josh para passear.

__ Quem é Josh?

__ Meu cachorro. È um labrador. Precisa se exercitar com freqüência. E você que animal tem?

__ Nenhum.

__ Nem mesmo um gato?

__ Não.

__ Periquito? Peixe? Papagaio? Ramister?

__ Não. Nada.

__ Nossa você é má. Não gosta de animais.

__ Eu gosto de animais, só não tenho muito jeito com eles.

__ Como assim?

__ cara, se  cão tem segunda vida. Ou vida após a morte. No céu tem um canil me esperando. Eu tive 10 cães.

__ Assassina.

O encarei.

__ Assassina de cachorros.

__ Fala sério. Eu não sei o que houve. Eu sempre levava no veterinário direitinho. Dava comida na hora certa e os coitados morriam.

__ Isso é falta de sorte. OU você não tem talento mesmo para cuidar de animais.

Tem flores ou plantas?

__ Um cacto conta?

__ Não.

__ Então não.

__ Você é doida. Como é sua casa? Uma casa mal assombrada. A clássica janela caindo do lado esquerdo?

__ Não. Minha casa é branca. Flores no jardim. Uma arvore bonita e crianças na varanda.

__ Uau. Como você consegue isso sendo tão propensa a matar qualquer forma de vida?

__ Eu moro com meus pais. Papai tem talento para cuidar de plantas e ele cozinha muito bem. Agora da aulas em um curso de gastronomia. Esta pensando em montar um restaurante. Por isso sempre tem crianças na varanda. Ele vive fazendo doces e outras coisas ai a casa se enche com os pirralhos dos vizinhos.

__ Filha única?

__ Sim. E você?

__ 4 irmãos. São 2 homens e 1 garota. Agora tem o Pierre. Ele tem cinco anos. Meus pais o adotaram aos três. Ele é um amor. E o dengo da casa. Não sei quem faz mais as vontades do garoto. Anny, Nicolas, Max ou eu. Fim de semana eu vou para casa vê-lo.

__ Deve ser legal ter família grande.

__ e sim. È bem legal.

__ Você não parece ser muito do tipo família.

__ Se engana. Gosto demais de ficar na casa dos meus pais. Adoro quando a casa fica cheia.

Eu apenas sorri.

__ Sem rosas hoje?

__ Sem rosas hoje, ainda.

__ Tem idéia de quem esta deixando aqui?

__ Não mais uma hora eu vou descobrir. Quem quer que seja vai ter que aparecer aqui para deixar.

__ Sim. E você vai ficar vigiando o coitado não é?

Ele se aproximou de mim como quem quer contar um segredo.

__ Exatamente! Gostou do restaurante ontem?

__ Gostei. É um lugar bem legal.

__ Vai com a gente hoje de novo?

__ Estou convidado?

__ Sim. É só não resolver pagar a conta outra vez.

__ Okai. Quando você for me chama.

__ Esta bem.

__E ai posso ficar aqui hoje de novo?

__Pode.

__ Tudo bem. Vou pegar minhas coisas.

Em menos de 5 minutos ele já estava de volta a minha sala.

__ Olha eu estava pensando em quem pode ter te mandado flores.

__ E?

__ Bom. Por eu ser novo aqui acabo pescando certas coisas. Insinuações e boatos. Então eu posso saber quem é.

__ Fala então, Sherlock Holmes.

Ele riu. Aproximou-se de mim e sussurrou baixo em meu ouvido. Como se estivesse prestes a fazer a revelação do século.

__ Aposto minhas fichas na ruiva da recepção. Ela te olha de um jeito esquisito.

O livro que estava na minha mão acabou servindo de arma. Arremessei nele com toda a força. E ele apenas riu. Riu muito.

__ Você é meio maluco sabia. Tem precisa urgentemente de ajuda profissional.

__ Foi só para ver você sorrir mesmo.

Ele se sentou. Eu recolhi um pouco as minhas coisas para que ele tivesse espaço.

Nessa hora Kátia passou:

__ Algum problema com sua sala, Tony? – perguntou ela.

__ Não. Nenhum problema.

__ Ah sim. Porque é a segunda vez que te vejo na sala da Liah. Ela deve estar te marcando mesmo. - disse debochada.

Eu ia falar quando ele entrou no meio.

__ Não. Eu que gosto de ficar aqui. Acabei de pedir a ela para me deixar ficar hoje também. Acho até que já ela já esta  ficando enjoada de mim.

__ Não. Fica a vontade. – eu disse.

__ Mas se você quiser- continuou ela.- Pode ficar na minha sala também.

__ Obrigado.

Ela sorriu e voltou para o corredor.

__ Esta vendo Tony, você já tem um convite para o caso de me irritar o bastante para eu te expulsar daqui.

__ O que não deve ser muito difícil considerando que você é cabeça dura, e pavio curto.

__ E você é irritante e chato.

__ Fazemos uma boa dupla.

Ri do sarcasmo dele.

__ Mas ela não faz meu tipo. Não curto mulheres atiradas.

___ Por quê?

___ È bom conquistar a pessoa. Tudo que é fácil de mais perde a graça.

__ Okai.

__ Bom, vamos ao trabalho.

Nos concentramos cada um em seu canto. Desempenhando nossas funções. Antony era uma companhia legal, quando estava quieto. Tina estava trabalhando em uma tradução. Era cômico tentar encontrar em português significado para certas palavras. Mas tudo bem. Eu ainda estava revisando algumas coisas. E ele mais uma vez fazendo arte.

__ Sem musica dessa vez?

__ Hoje não. Esqueci de carregar.

Eu ri. Era bem desatento. Raramente quem trabalha com esse tipo de coisa tem muita organização. A psicóloga disse que isso é normal. Eu não confiava muito nisso. Pelo menos minhas coisas eram bem organizadas. Meus formulários ficavam em ordem alfabética. Acho que na verdade eu tenho até TOC- Transtorno Obssessivo Compulsivo. Porque eu não consigo deixar minhas coisas espalhadas. Tenho que ter sempre em mãos o que eu quero.

Eram mais de 10 horas da manhã. Quando ouvi um som de batida na minha porta. Antony se levantou e foi atender. Era Luis.

__ Liah, tem um garoto aqui te procurando. Acho que é o filho da dona do café ali de baixo.

__ O que ele quer comigo?

__ Tem algo para você.

Eu não entendi muito bem. Entendi menos ainda o motivo da cara de espanto que Luis estava.

Entrou em meu campo de visão um garotinho muito fofo. Sorrindo para mim.

Sorri de volta e olhei para sua mão. Uma rosa.

__ Me pediram para te entregar;- ele disse me estendendo.

Eu peguei a flor e olhei para o garoto.

__ Quem mandou?

__ Não posso dizer.

__ Por favor.

__ Não posso.

__ Eu te dou doces. - apelei.

__ Quem mandou me deu dinheiro. - ele disse sorrindo- e pediu para eu não falar que se eu não falar depois ele me da mais alguma coisa.

__ Aff.

O garotinho saiu de dentro da minha sala cantando.

__ Tentando subornar uma criança. - disse Antony fingindo pavor.

__ Cada um luta com as armas que tem. Devo admitir que quem esta fazendo isso é esperto.

__ È, ele ou ela. - disse ele sem perder a chance de implicar- Não foi idiota. Sabia que você vigiaria e se antecipou.

Peguei a rosa nas mãos. Era de um vermelho lindo. Sem uma mancha se quer. Era linda. E exalava um perfume gostoso. E eu mais um vez não tinha um jarro.

__ Não trouxe um jarro.- eu disse.

Ele apenas me estendeu a mão com um copo alto com água.

__ Obrigada.

__ Disponha. Cara pão duro hein?

__ Por quê?

__ Uma flor só.

Ri.

__ Você faria o que?

__ Sei lá. Acho que eu já teria falado com a garota.

__ Você se acha o cara.

__ Não. Mas eu sei que quando a gente quer. Precisa lutar para conseguir.

__ E ai tem alguém que seja o foco de toda essa atenção.

__ Não.

__ Não?

__ Ainda não.

Olhei para ele novamente e ele tinha um sorriso no rosto. Um sorriso bonito que mesmo naquela idade ainda aparentava inocência. Ele tinha uma fé em si mesmo, era difícil de se descrever.

__ Me enganaram sobre você.

__ Como assim?

__ Me disseram que você era difícil de adaptar a alguém. Que quase não sorria.

__ Geralmente é verdade.

__ Engraçado. Eu já vi você sorrir 18 vezes. E rir mesmo 6.

___ Você contou?

__ Sim.

Eu não sabia o que dizer:

__ Você faz coisas engraçadas. Me faz rir mesmo sem querer entende?

__ Viu o pirralho engraçado serve de alguma coisa.

__ Serve sim.

Ele mais uma vez sorriu para mim.

Quando Tina, Tony e eu entramos no restaurante. Kátia nos olhou e levantou a sobrancelha. O impulso de dar língua foi quase irresistível. Senti uma vontade enorme de fazer isso.

Tina estava desesperada com as traduções. Encontrar nomes que ficassem descentes em português para coisas em outro idioma as vezes era cansativo. Nomes de animais de estimação eram o pior. Quando não eram básicos tipo Toby, Jonh. Ou coisas do gênero. Era terrível. As vezes em inglês soa bem mas na hora de passar para português sai um treco surreal.

Antony riu muito das historias que ela contou. Eu acabei rindo também, me perguntando se ele contabilizava. Quando terminamos o almoço antes que eu percebesse ele pagou de novo. A parte dele e a nossa.

__ Ei você não pode fazer isso.- eu disse.

__ Tony ontem você disse que foi por fazer parte da equipe.- disse Tina indignada também.

__ Meninas calma. È só um almoço.

__ Isso não pode se repetir. – Tina disse.

__ Eu não faço de novo, eu juro. - disse ele fazendo cara de arrependido.

__ Você disse isso ontem também. - eu esbravejei.

__ Ok. Então. Me processe.

Não sabia como ele conseguia fazer isso. Me tirar do serio com tanta facilidade assim. Saindo do restaurante ele ainda comprou uma trufa para mim e para Tina. Avelã novamente. Ele realmente havia prestado atenção. Ele tinha uma mania que me irritava. Ficar se oferecendo para pagar coisas que eu consumia. Eu trabalho para isso mesmo. Para poder assumir meus gastos. Está certo que foi um gesto de cortesia. Uma vez tudo bem. Mas isso já estava se repetindo demais. E eu não gostava nenhum pouco disso.

__ Olha eu estou falando sério com você. - eu disse naquela tarde em minha sala.- se você fizer isso novamente eu vou acabar parando de almoçar com você.

__ Esta bem. Eu não vejo nada demais nisso, mas se você vê, tudo bem. Eu vou parar.

__ Obrigada Tony.

__ Liah você tem namorado?

Perguntou ele, e eu me perguntei se ele poderia ter visto o tremor e o choque em meu corpo.

__ Não. Eu não tenho.

__ Estranho.

__Porque?

__ Por nada, é só que você é inteligente, dedicada e muito bonita. Então não teria motivos para ficar sozinha.

__ Talvez.

Ele continuou me olhando percebi que ele analisava meu rosto. Queria saber o que ele procurava. Mas não consegui. Decidi desviar o assunto.

__ E você qual o motivo da solidão?

__ Simplesmente não vi ainda ninguém que me interessasse realmente.

__ Como assim?

__ Olha, mulheres atraentes tem aos montes. Mas eu não gosto de sair ficando simplesmente. Então estou sozinho por que ainda não conheci alguém que fosse capaz de me fazer querer estar com a pessoa.

__Ok. Mas você não fica sozinho nesse meio tempo não é?

__ Exatamente.

__ Safado.

__ Sou nada.

Homens são todos iguais, eu pensei.

Nesse exato momento, e falando no diabo, Calvin aparece na porta da minha sala.

Olhou de canto de olho Antony sentado junto a minha mesa.

__ Recebendo flores? Quem será o cara?

__ Não sei.

__ Não gosto muito de competição. – disse ele e eu tive que segurar para não rir. Vi Antony revirar os olhos.

__ Competição quanto ao que?

__ Você é claro.

__ E quem esta competindo?

__ Eu e o cara das flores.

“o cara das flores” Pensei de novo.

__ Olha é tempo perdido então, boa sorte para os dois.

__ Você não pode ser tão durona. - disse ele se aproximando de mim. Antony ergueu as sobrancelhas.

Coloquei a mão no peito de Calvin e percebi que ele entendeu o gesto como uma permissão. Fiz força contra ele e disse:

__ Olha, a não ser que você queira continuar essa competição faltando alguns dentes. Te sugiro não ficar tão perto assim de mim.

Ele riu. E depois lançou um olhar para Tony.

__ Coitado do cara das flores. - disse Tony rindo.

__ Essa é o que me faltava.

__ Ele estava me olhando feio.

Pior que estava mesmo.

__ Ele me acha uma ameaça.

__ Acho que não. Sei lá é porque você é novo.

__ E estou mais perto de você do que ele ficou em anos.

__ Pode ser.

__ E ai, sou uma ameaça para ele?

__ Ele nunca foi algo considerável para mim.

__ E eu sou?

Seus olhos azuis me encararam e eu não conseguia entender se ele estava zombando ou não.

__ Ah Tony, deixa de bobagem.

__ Eu estou falando sério.

__ Tudo bem. Então lá vai: Tony eu sou completamente louca por você.

Disse sorrindo.

__ Seu sarcasmo é impressionante.

Estávamos de pé perto da mesa. Não percebi o quanto estávamos próximos. Ele parou me olhando de novo.

Antes que eu pudesse pelo menos me preparar. Ele tirou meus óculos. Senti seus dedos quentes roçarem minha pele. Me os fitou por um longo tempo.

__ Não tinha percebido quanto seus olhos são lindos. - Ele disse.

Eu fiquei vermelha, senti minhas bochechas quentes e o olhei sem saber o que dizer.

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Tentativas parte I

Alguém naquela editora estava brincando comigo. Pensei na data. Geralmente no dia internacional da mulher eles davam rosas para as mulheres que trabalham na editora. Mas hoje não é dia internacional das mulheres. A menos que eu tenha ficado tão aérea que não tenha visto isso. Mas não. Eu sei que não era. Então quem seria capaz de me mandar flores. Não me importei muito. Não me importava muito com nada.


Eu apenas queria trabalhar sossegada. Sentei e comecei a trabalhar de novo. Precisava apressar um bendito escritor. Iríamos acabar perdendo a data do lançamento do livro. E o outro precisava corrigir algumas coisas, a menos que quisesse lançar uma piada e não um livro. Continuei ali apenas escrevendo. A noite teria eclipse. Eu tentaria ver. Continuei ali sentada lendo e re-lendo. Tinha que decidir se publicava alguma coisa ou não. No fim do dia a pilha de “Publico” tinha 6 e a lista de “Não Publico” tinha 12. Havia boas histórias, mas precisavam amadurecer. Então eu ainda tinha a boa vontade de escrever e dar alguns toques nos escritores. Gostava de ver quando meses depois chegava algum texto novo e eu reconhecia as mudanças. Dava gosto de ver e só publicava se realmente tivesse ficado bom. Alguns me mandavam poucas e boas redigidas. Mas alguns conseguiam ver a essência e extrair alguma coisa de bom na critica. Porque ela era bem construtiva. E assim seguia. Eu também precisava ver se a capa dos livros condiziam com a história ou se pelo menos passavam a mensagem. Por isso gostava de Tina. Ela sempre conseguia ver a alma do texto e pensar em uma capa perfeita. Enquanto eu me distraia em pensamentos “ele” chegou. Cantalorando e sorrindo. Olhou para a mesa e disse com um sorriso:

__ Conquistou alguém, hein?

__ Alguém deve estar pensando que é 1° de abril.

__ Ou alguém conseguiu ver uma mulher irresistível atrás de todo esse mal humor.

__ Cuidado recém-chegado, eu mordo.

__ Bem que eu gostaria. - disse ele sorrindo de novo.

__ Antony você quer arrumar problema comigo logo de cara?

__ Não. Mas vou acabar arrumando se você continuar me chamando de Antony.

__ Mas Antony é o seu nome.

__ È, mas eu já disse tenho apelido. È Tony.

__ Ok, Antony.

Ele me encarou mais uma vez. Me avaliando. O encarei de volta. Claro que eu tinha que olhar para cima porque era ligeiramente mais baixa que ele.

__ Você é muito mala.

__ Oh Meu Deus. Voltamos ao jardim de infância.

Ele riu.

__ Se estivéssemos no jardim de infância você seria a professora malvada que ninguém gosta.

__ E você seria o pirralho enjoado que fica sempre de castigo.

__ Mas o pirralho enjoado sempre é o favorito da turma. A professora não.

Pela sua expressão vi que ele pensou ter ganhado a batalha.

__ Claro todo mundo tem que ter um palhaço para rir.

__ Melhor um palhaço que faz rir do que uma bruxa que faz chorar.

__ A bruxa vai usar o grampeador de papel no dedo do pirralho se o pirralho não a deixar em paz.

__ Aff, você precisa relaxar.

Apertei o grampeador para o lado dele em uma ameaça velada.

Ele apenas sorriu de um jeito que honestamente estava começando a me irritar.

Tina entrou na sala na hora. Me olhou com uma cara e depois olhou para Antony. Ele olhou para a sala e disse:

__ Qual o numero dessa sala?

__205 não sabe ler?

__ Sei. Numero inapropriado.

__ Por quê?

__ Deveria ser 71 e ter teias de aranha para todo o lado nas paredes, um caldeirão perto da porta e um gato preto debaixo da mesa.

Mal vi quando o grampeador saiu de minha mão e foi direto em direção dele. Ele se esquivou e saiu rindo da minha sala.

__ Ah eu vou arrancar os olhos dele. - eu disse.

__ Que foi que eu perdi?

__ Nada Tina! A não ser o novato me estressando ao máximo e tentando me matar do coração. Infarto aos 22 anos. Que demais.

__ Ele te tirou do sério? Fez todo mundo rir lá em cima. Caiu nas graças do povo todo.

__ È? Mas só soube me irritar.

___Será culpa dele? Mas pelo menos uma coisa ele te fez sentir.

__ O que?

__ Mesmo que seja apenas raiva, mas não deixa de ser um sentimento e um sentimento forte.

A encarei surpresa e confusa. Realmente nos últimos meses eu não havia sentido muita coisa. Fome ou frio talvez. Mas raiva, ódio ou amor não. Sentia apenas a dor sufocante dia após dia em minha mente. E a raiva sim. Mas de mim mesma. Se eu tivesse feito as escolhas certas não estaria nessa situação. Tudo seria diferente se eu tivesse escolhido a opção certa. Não teria dor. Nem tristeza. Nem solidão. Não teria nada. Mas como sempre, eu fiz a escolha errada e agora eu passaria a vida inteira sendo punida por isso.

Voltei para o presente e senti os olhos de Tina em mim. Por trás do negro de seus olhos eu vi o arrependimento de ter dito algo. De ter falado qualquer coisa que pudesse ter me magoado ou me trago lembranças ruins. Fiz um esforço e sorri para ela.

__ Ele é um mala. Tomara que o transfiram para qualquer outro setor que não seja o meu. Eu não mereço.

Ela riu e olhou para a mesa.

__ Rosas?

__ Correção cara amiga. Uma rosa.

__ Quem te deu?

__ Não sei. Deixaram jogada em cima da mesa. Talvez tenham errado a sala.

___ Sei.

__ Quem me mandaria flores?

_ Sei lá. O Calvin.

__ O ilustrador egocêntrico? Acho que os nãos que eu dei na cara dele foram o suficiente para ferir e desmanchar aquele ego enorme que ele tem.

__ Pior que é. Não o vejo mais dar em cima de você.

__ Não agora ele é dedicado a dar em cima da Kátia.

__ Cara ele atira para tudo quanto é lado.

__ Se a editora sofrer um ataque temos nossa metralhadora.

__ Mas acho que ele vai ter competição agora. As meninas ficaram loucas no Tony. Também não é de se admirar nem questionar. O cara é lindo. Lindo de mais. Inteligente e divertido. È perfeição demais em um homem só. Os que eu conheço são ou coisa ou outra. Ou são lindos e burros, ou lindos, inteligentes e arrogantes. Ou feio e inteligente e sensível.

__ Nossa.

Eu conheci alguém que se enquadrava perfeitamente nessas condições. Lindo, inteligente, gentil e divertido.

Sacudi minha cabeça de novo. Porque as lembranças tinham que ser tão insistentes.

No almoço dava para ouvir os comentários das garotas. Aquele maldito restaurante estava ficando cheio demais. Fazer o que? Era o único lugar que eu conseguia almoçar em paz. Eu poderia até ir em casa almoçar. Mas o transito era muito intenso e eu poderia perder boa parte do meu horário.

Ouvia Kátia dizer o quanto os olhos do rapaz era lindo, o quanto a boca dele era tentadora. O Calvin arrumou concorrência mesmo. Pensei comigo mesma.

Depois do almoço como normalmente fazíamos voltamos para a sala. E continuamos o trabalho. O novato veio me mostrar a idéia para o livro. Até que era boa. Realmente ele tinha talento. Para não dar mais asa a cobra apenas disse um: Ficou bom.

Ele não disse nada apenas saiu da minha sala.

Acho que ele devia estar esperando palmas e uma estrelinha. Nossa, estou mesmo ficando malvada.

Passei o resto da tarde apenas me dedicando a livros.

Eram 17h50min estava quase saindo quando ele entrou na minha sala de novo.

O encarei. Ele apenas me estendeu uma pasta. A abri e ali tinha uma capa de livro. Para o mesmo livro que ele havia me mostrado antes só que essa estava simplesmente incrível. A outra já estava ótima, mas essa aqui estava demais.

__ Mas porque você fez outra?

__ Você disse que estava boa.

__ Bom e geralmente as pessoas entendem isso como uma aprovação.

__ E essa?

__ Essa esta ótima, a outra estava muito boa mas essa aqui preenche mais o conceito do livro. Ficou realmente lindo. Esta excelente parabéns.

__ Obrigado.

__ Mas porque você fez de novo?

__ Nunca faço nada apenas bom.

Disse me deu um sorriso e saiu da sala.

As 22 horas eu já estava no parque da cidade. Usava um moletom porque estava frio. E estava sentada com meu telescópio já montado só esperando o espetáculo começar.

Havia varias pessoas no parque. Observadores que como eu queriam ver o eclipse. As 22:15 como previsto ele começou. Fiquei observando aos poucos enquanto a lua assumia aquele tom avermelhado. E depois se escurecia. Olhando pelo telescópio era chocante. As cores muito vivas. Um misto de luz e escuridão que encantava. Olhei em volta e vi que as estrelas estavam lindas. As constelações dividindo o palco daquele espetáculo. Scorpion, Sagitário, Centauro. Estavam lindas. Minha favorita é Scorpion. È a maior e mais detalhada. É curioso como todos olham para cima e nunca conseguem ver a menos que alguém mostre ou saibam o que estão procurando. È tão bonito.

Me deitei no lençol e fiquei olhando para o céu. O eclipse estava lindo. Um fenômeno que ninguém deveria perder.

Gostava de ver a natureza se manifestando em seus mistérios. Porem eu sabia que ao fazer isso eu acessava lembranças que tentava a todo custo sufocar. Lembranças que quando surgiam, rasgavam todos os tecidos dentro de mim e surgiam como uma sombra negra que me impedia de ver o sol. Lembranças que ao se erguerem me mostravam que simplesmente não existia nada. Como se tudo fosse apenas um sonho e eu agora tivesse que viver a vida no pesadelo. Lembranças que ao se erguerem me jogavam no buraco escuro de onde elas nunca deveriam ter saído e que eu poderia visitar sempre que quisesse. Se eu aceitasse pagar o preço depois. Mas eu não aceitava. Era alto de mais. Então eu apenas passava por cima.

Por isso no exato momento em que comecei a me lembrar de quantas vezes estive deitada em seu peito naquele mesmo parque vendo também um eclipse. Me levantei juntei minhas coisas e sai direto para o carro. Por mais que eu quisesse eu não conseguiria ficar ali mais um minuto que fosse. Encarar lembranças era para os corajosos. E eu era apenas uma pessoa fraca.

Chegando em casa apenas me joguei na cama. Foi inútil percebi 45 minutos depois. A dor era tamanha que eu não conseguia respirar. Me levantei fui ao banheiro, peguei um comprimido do remédio para dormir e o engoli. Eu não era forte o suficiente para enfrentar a noite sem ele.

Em pouco tempo a inconsciência me dominou. Eu sabia que eram raras as vezes que as lembranças não me incomodavam nos sonhos. E eu tinha certeza que hoje não seria um dos dias que eu não me perderia em sonhos de um tempo maravilhoso mas que simplesmente acabou.

Ao acordar no outro dia, parecia que tinha sido atingida por um furacao. Sentia uma dor de cabeça terrível. E não conseguia enxergar nada na minha frente. O frio estava horrível. O vento ricocheteava meu rosto. Procurei uma sapatilha para calçar e tirei minha jaqueta jeans do guarda roupa. Mais uma vez passei o pente pelos cabelos e o prendi usando um palito. Apenas a franja ficava solta no rosto. Mamãe sempre dizia que meu cabelo era lindo para sempre viver escondido daquele jeito. Eu não me incomodava. Meus óculos também eram um modelo meio ultrapassado e não muito atraente. Me deixava mais velha. Mas eu só usava na editora mesmo. Ri pensando que isso não era desculpa. Afinal tirando a editora eu não tinha vida nenhuma.

Chegando a minha sala. Mais uma rosa vermelha.

Antony chegou logo depois de mim.

__ Você viu quem deixou isso aqui?- perguntei.

__ Não.- respondeu ele me encarando.- Você não esta irritada por receber flores esta?

__ Não. Eu não estou irritada com as flores. To irritada por não saber quem esta mandando.

__ Vai ver a pessoa não tem coragem de te entregar pessoalmente.

__ E porque não teria?

__ Ontem você mesmo me disse que morde. Acho que isso já é uma dica.

Eu ri. Não teve jeito.

__ Okai. Vamos ver em quanto tempo ele desiste.

__ È vamos ver. Ah olha o escritor mandou mais dois capítulos de livro para você revisar.

__òtimo eu estava esperando por isso.

Ele me passou o documento e eu comecei a ler.

__ Ah esqueci de te dizer ontem.- ele começou e eu o olhei.

__ O que?

__ Para mim vai ser ótimo trabalhar com você. Todos dizem que você é a melhor daqui. Que não é editora chefe porque ainda não quis. Todos falam que você é uma lenda. Sua reputação te precede e trabalhar com alguém assim é muito significativo para mim.

Sorri para ele novamente.

__ È a segunda vez que te vejo sorrir.- ele disse e voltou a encaram a folha que trabalhava.

O olhei sem entender e voltei a me focar no texto. Realmente era a segunda vez que sorria no dia.

__ Obrigado pelos elogios, Tony.

Ele sorriu satisfeito.

__ Você se incomoda se eu ficar aqui ao invés de ir para minha sala?

__ Não. Se você conseguir se acomodar.

__ Posso usar a ponta da mesa?

__ Pode.

__ E você se incomoda se eu fizer outra coisa?

__ O que?

__ Você não gosta de ninguém te perturbando enquanto trabalha não é?

__ Mais ou menos isso.

__ Então você não se incomoda se eu...- ele deixou a frase inconcluida e me mostrou um pequeno mp3 player.

__ Fique a vontade. Mas não coloque musica alta.

__ Pode deixar.

Ele colocou o fone de ouvido, ligou o som e voltou para a folha.

Mirei meu texto e continuei a ler.

Vi Kátia passar no corredor e em seguida voltar para ter certeza que havia visto Antony mesmo na minha sala. Concluiu que sim e continuou caminhando. Balancei a cabeça.

Aquela garota era doida.

Ele me olhou e eu retribui seu olhar. Vi que seus olhos realmente eram de um azul lindo.

Ele ficou em minha sala até a hora do almoço.

Quando tina passou para me chamar ele se levantou e começou a juntar as coisas deles.

__ Antony. - chamei enquanto ele já estava na porta. Recebendo um olhar de protesto por usar o nome todo.

__ Você almoça onde?

__ Ainda não resolvi. Estou na fase da avaliação. Vou em um depois em outro restaurante.

__ Vem com a gente hoje. Se você quiser. Almoçamos a menos de uma quadra daqui.

__ Claro. Vou sim. Tudo bem para você Tina?

__ Claro tudo bem.

Respondeu ela em seguida me lançando um olhar de duvida.

Saímos os 3 para almoçar.

Percebi que ele realmente era um pouco divertido. Tina não deixou de investigar a vida dele de maneira sutil.

Idade, namorada, onde morava.

Respostas: 26 anos, não namorava e atualmente morava em um apartamento num bairro legal do outro lado da cidade. Havia se mudado para a cidade a pouco tempo então não conhecia muita coisa. Já sabia que ela o convidaria para um lugar qualquer fim de semana. O pessoal do escritório sempre saia.

Terminamos de almoçar e ele simplesmente pagou ao garçon. A parte dele a de tina e a minha.

__ Voce não pode fazer isso.- protestei.

__ Até onde eu saiba não tem nenhum tipo de documento dizendo que eu não posso pagar um almoço para vocês. A lei foi aprovada e eu não sabia?

__ Eu não pedi para você fazer isso.

__ Já ouviu falar de gentileza?

__ Já mas eu não gosto desse tipo de coisa. Me diz quanto ficou minha parte e eu te pago.

__ Não vou.

__Vou perguntar ao garçon.

__ Não adianta eu dei uma boa gorjeta para que você ficasse longe dessa conta.

O encarei furiosa.

__Olha se você ficar melhor com isso e faz tanta questão. Isso fica como uma agradecimento meu por fazer parte da sua equipe.

__ Não concordo com isso.
Ele continuou andando e ignorando completamente os meus protestos.

Quando saiamos ele se afastou por um tempo depois voltou com uma trufa de chocolate em uma caixinha dourada. Deu uma para mim e outra para Tina.

__ não me xinga por favor- pediu ele.

__ Obrigada.- disse Tina.

__ Obrigada, Tony- eu disse.

__ De nada. – ele respondeu e sorriu para mim.

Percebi as garotas do escritório nos olhando. Sentada em um dos bancos comi minha trufa. Coincidencia eu adoro trufa com recheio de avelã. E foi o que ele trouxe.

__Como você sabia?- perguntei.

__ O que?

__ Que eu gosto de trufa com recheio de avelã.

__ Eu não sabia.

Engraçado. Ele sabia de uma coisa tão boba mesmo sem querer.

Ficamos ali ainda por um tempo.

Depois do almoço ele continuou na minha sala.

__ Voce deveria colocara rosa em um jarro.

__ Sim, nem pensei nisso.

Ele me passou um copo alto de vidro.

__ Onde você arrumou.

__Consegui na cozinha disse que no fim do dia devolvia.

Ele despejou água mineral no copo e me passou. Coloquei o botão de rosas vermelho dentro e o olhei por um momento.

__ Rosas vermelhas é amor. Voce sabe não é?

__ sei.

__ E ai quem será o sortudo que você conquistou.

__ Porque sorturdo?

__ Uma mulher como você. Certamente ele é um cara de sorte.

__Acho que ele deu muito azar.

__ E porque?

__ Porque ele escolheu uma pessoa que  que tem o coração totalmente fechado para esse tipo de coisa. Isso se eu ainda tiver um coração.

Seus olhos se estreitaram mas ele não disse nada.

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